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Fumar em São Paulo – a13.541

Aos 14 anos, em meados de 1986, num ponto de ônibus na Vila Matilde, dei meu primeiro trago num Free e, tonto, iniciei a série, ainda crescente, de milhões de tragos que tanto participaram da minha vida.

Antes deste marco eu já fumava, desde criança na tabela passiva da convivência de uma família quase 100% fumante, e desde alguns meses antes meus próprios cigarros, furtados da mesada ou do maço de um dos meus pais (Shelton se do meu pai, Charm se da minha mãe). Fumar foi o caminho natural de adesão à tradição familiar e à de boa parte da minha geração, no entanto até aquele momento eu não tragava: a fumaça percorria apenas o caminho da boca ao nariz, pois eu simplesmente não sabia que tinha que respirar o negócio… não haviam manuais de tabagismo!
Até que um dia observei mais atentamente um fumante que demorava um bocado a mais do que eu para liberar a fumaça e resolvi, após algumas considerações, que a única maneira disto ocorrer com a fumaça seria inalando-a. Feito, a ignorância só me conseguiu poupar uns poucos dias de saúde.

Fumar, além da ilusão de independência e maturidade que proporcionava, me incluia em um grupo, o dos independentes, maduros, e fumantes! Na escola o cigarro para os outsiders – os que não tinham nenhuma inclinação para o esporte ou para formar grupos de aporrinhação aos outsiders – era uma senha: reconhecíamo-nos nos sinais de fumaça e nos conhecíamos serrando coletivamente cigarros uns dos outros, até que conseguimos formar uma turma auto-sustentável composta de 90% de fumantes.
No início a prosmicuidade do fila fazia com que trocássemos regularmente de marca, até que cada um, depois de alguns meses, adotou o seu de prefefência: eu LM azul, o Valcir Plaza curto, o Boys com Galaxy, a Rô acho que era Free, o Will e o César, Holywood. Sem nunca abandonar o sempre popular Simidão, que preenchia as lacunas aos finais das mesadas.

Naquela época, fora da sala de aula e dos coletivos, fumava-se em qualquer lugar e não existiam ‘não-fumantes’, apenas ‘ex-fumantes’, que eram os únicos que protestavam contra a fumaça. Fumávamos nas reuniões internas do grêmio, nas sessões de teatro que terminavam num boteco qualquer – nunca encenamos uma peça, mas fizemos a alegria dos donos de botecos da Penha, já que não havia qualquer mal em vender cerveja e cigarros para qualquer um – no cinema, nos ônibus de turismo, nas filas em bancos, no trabalho. Creio que haviam leis contra o fumo na maioria destes ambientes, mas sei lá por qual motivo apenas nos ônibus urbanos, e em São Paulo capital, a proibição era respeitada.

De lá pra cá, enquanto meu vício se sofisticava – passei por inúmeras marcas até parar no Marlboro – e aumentava – parti de 1 maço por semana para atuais 2 por dia, num dia bom – ele sobreviveu a algumas tentativas de separação, até que percebi que, a cada vez que voltava a fumar, voltava fumando mais e mais fortes cigarros, e desisti de tentar parar.

Durante muitos anos continuei fumando com liberdade em quase todos os lugares impensáveis hoje em dia: nos corredores dos cursos noturnos, na mesa de trabalho ao lado de não fumantes, em simplesmente qualquer bar ou restaurante – com um curto respeito às nossas refeições – , nos aviões… sim, os aviões eram divididos ao meio por uma cortininha mágica que separava as áreas de fumantes e não-fumantes (ah que saudade dos Electras da ponte Rio-São Paulo…) e impedia que a fumaça dos primeiros invadisse a atmosfera dos segundos.

Nesse percurso, além do meu pulmão e vários sofás e tapetes, também vários momentos da minha história ficaram marcados pelo cigarro, como a namorada que começou a fumar quando namorávamos – e não parou depois que terminamos; a rodinha de irmãos fumantes no velório do meu pai que sofreu de câncer, todos de cigarro na mão e falando de parar de fumar; a paquera que perdi em Hamburgo ao sair para comprar cigarros – quando voltei… ah, deixa pra lá ;) ; os dias sem grana onde tive que optar entre o cigarro e um lanche (venceu o cigarro); as caminhadas noturnas quando o estoque acabou no meio da madrugada; o fôlego que percebi que perdi quando precisei dele… bem, bem sei, todas ruins.

E aí as coisas começaram a mudar depois da metade da década de 90: primeiro surgiram as áreas de fumantes nos restaurantes, depois a proibição total no ambiente de trabalho e nas áreas comuns de qualquer ambiente coletivo, nos aviões também a proibição foi rápida e definitiva (quero saber até quando vão fabricar os aparelhos com os obsoletos avisos de ‘não fumar’)… até que, perto do ano 2000, surgiu uma forte e atuante classe: os ‘não-fumantes’.

Diferente dos chatos ‘ex-fumantes’, aos quais podíamos retrucar lembrando suas antigas baforradas, os ‘não-fumantes’ já nasceram inocentes e prenhes de razão, militância, e intolerância, como se quisessem ir à desforra por anos de nicotina alheia e como se tivessem a certeza de que uma respirada qualquer de um Marlboro na mesa ao lado os levariam a terminar a noite no consultório de um oncologista.

Armados com fuzilantes olhares de reprovação e ágeis mãos abanadoras, aos poucos foram conquistando corações e mentes (e pulmões!), corretamente inibindo o fumante onde fumar era inadequado e, prova de sucesso, tornando cada vez mais constrangedor fumar até onde é permitido. Já faz tempo que, antes de acender um cigarro em um ponto de ônibus, verifico a direção e força do vento, para me posicionar estrategicamente em algum lugar onde minha fumaça não alcançará ninguém.

Hoje, principalmente depois da experiência na europa, onde vi que não é assim tão desagradável ir à calçada fumar seu careta, estou conformado com a nova lei – ainda tenho algumas dúvidas, como se poderei fumar no estacionamento do prédio se eu estiver dentro do carro – e pretendo acender meu último cigarro dentro de boteco amanhã às 23:55 e apagá-lo respeitosamente às 00:00, mas já com saudade dos velhos tempos e declarando meu apê e meu carro como zonas livres de lei antifumo ;)

  1. rafael caldara
    5, agosto, 2009 em 17:32 | #1

    demorou essa lei hein!? rs
    na garagem do predio é proibido Edu…
    só vai poder dar contato no cigarro, quando o carro já estiver na rua… rs

  2. 5, agosto, 2009 em 17:36 | #2

    Ah, aí é que está: na garagem não pode, mas no carro sim! O carro está dentro da garagem, quem resolve isso? Vou fumar, nem que tenha que recorrer ao STF!

  3. Renato
    5, agosto, 2009 em 18:26 | #3

    É cara, o fumante tá sendo cercado por todos os lados.
    Logo, logo o cara vai estar fumando no banheiro e no meio do barrão uma teletela modernosa vai gritar, caguetando ele …

  4. Emerson
    5, agosto, 2009 em 19:03 | #4

    Edu, essa massa de fumantes antes dos anos 90 que você relata não aconteceu em outras cidades. Em BH me lembro de apenas um colega de colégio que fumava. Na faculdade, na minha turma, só tinha um fumante também. Nos bares é comum ter muitas mesas sem nenhum fumante e olhe que bar não falta em BH. Aqui em Belém a proporção de fumantes me parece ainda menor. Mas, boa sorte! :-)

  5. 5, agosto, 2009 em 20:47 | #5

    Provavelmente por eu ser fumante notasse mais os que haviam, até mesmo pela necessidade :) Éramos minoria, mas atuantes… Mas a lembrança que realmente mais me impressiona é a de fumar no trabalho: quando ganhei minha 1a mesa veio um cinzeiro junto, e até o fim dos anos 90 eu fumei tranquilamente em todos os lugares em que trabalhei. Cheguei até a dividir uma baia com um não-fumante durante mais de um ano.
    Sobre Belém, legal não haver muitos fumantes… e provavelmente não tem muitas leis, né? Definitivamente preciso ir pr’aí visitá-lo! ;)

  6. Andrey Sant’Anna
    6, agosto, 2009 em 00:46 | #6

    Edu, parabéns pela sua visão da coisa.
    Saiba que alguns não-fumantes não reclamam dos fumantes à toa: Eu não conheço nenhum fumante educado: quer coisa mais básica do que não jogar cinza e bitucas nas ruas? “É normal…”, diriam… “Cinza não é lixo…”, mas porque não bitucam no chão da sala de suas casas? Ou nas casas de seus amigos?
    Há duas semanas estive em um bar-restaurante-boteco aqui perto de casa, para comer, acompanhado de esposa e bebê. Ao nosso lado se sentou um casal que imediatamente acendeu os pirulitos-de-câncer, coisa que considerei a maior falta de respeito para conosco.
    O garçom, sob pretexto de que a lei ainda não estava valendo, disse que não podia fazer nada (nem solicitar educadamente aos fregueses). Foi aí que reafirmei pra mim mesmo, como essa lei é necessária.
    Após tantas tentativas hipócritas de definir áreas de fumantes/não fumantes separadas por uma cortina de fumaça, finalmente, algo foi feito.
    Ao casal, só me restou comentar em tom bastante audível, que ainda que forçadamente, essa falta de respeito ao próximo – despercebida ou desdenhada – ia acabar.
    Quanto à minha encheção de saco para meus amigos fumantes, é porque quero o bem deles. Nos meus palpites, também sugiro viagens, botecos e livros… sou palpiteiro mesmo. Pergunte aos meus amigos não fumantes se eu não encho o saco deles também. :D
    Um abraço e que um dia você possa vencer a nicotina!

  7. doneta
    7, agosto, 2009 em 07:38 | #7

    Não li a lei. Gostaria de saber se posso abrir um comércio qualquer, com placa visível na frente com os dizeres ” SÓ É PERMITIDA A ENTRADA DE FUMANTES” e liberar o cigarro? Babaquice do Serra. Onde esse cara quer chegar discriminado fumantes? Depois dessa,ficou claro que ele não sai canditado a presidente. Terá que se esforçar muito para se eleger síndico de prédio. Se é proibido fumar,queria ver se ele tem peito para proibir a comecialização e fabricação de cigarros no SEU (DELE) estado.Ridículo. Obs.: Não sou fumante.

  8. 7, agosto, 2009 em 11:48 | #8

    Fantástico texto…

  9. rafael caldara
    7, agosto, 2009 em 12:16 | #9

    segue um link interessante…
    http://www.leiantifumo.sp.gov.br/

  10. rafael caldara
    7, agosto, 2009 em 12:19 | #10
  11. Andrey
    7, agosto, 2009 em 17:41 | #11

    Normal, qualquer mudança beneficia alguns e prejudica outros.
    Muitos fumantes, inclusive, aprovam a medida (segundo pesquisas da imprensa).
    Mesmo que não aprovassem, há certas medidas que tem que ser tomadas, como a história do beber e dirigir. Há de se fazer o que é certo e não o que agrada a alguns só pra não mexer em vespeiro, isso é coragem.
    Não entendi a revolta da doneta, que nem fuma… acho que é só ódio do Serra e só. ;)
    Mas veja bem, nenhum lugar está proibindo a entrada de fumantes, apenas não se quer que eles fumem alí… é um conceito interessante, esse da civilidade.
    E sim, é permitido um local destinado ao fumo (só pra fumantes seria discriminação).

  12. Asciudeme
    19, setembro, 2009 em 06:23 | #12

    Essa tal de Doneta, deve ser daquelas petistas arraigadas, percebe-se pelo linguajar e besteiras que fala. Parabéns Andrey pela suas colocações e ao autor da história.

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