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Lula, o filho do Brasil

Em 10 de maio de 1958, Carolina Maria de Jesus escrevia o seguinte em “Quarto de Despejo. Diário de uma favelada”: “… O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças.

Pode-se falar o que for sobre o Lula e seu governo, a média classe média do Sul e Sudeste pode esbraVejar do alto de sua indignação preconceituosa pouco esclarecida e muito manipulada; os analistas de plantão, bastante ouvidos apenas pela classe acima citada, podem dissecar todas as iniciativas e movimentos deste governo que certamente acharão erros, problemas, más condutas, na mesma medida que não enxergam, ou não divulgam, seus inversos.

Mas todos ão de convir que a trajetória de um nordestino que conheceu a pobreza e a fome e que viajou 13 dias em um pau-de-arara para, junto com sua família alicerçada pela mãe Dona Lindu, com seu bordão “Teima, é só teimar que dá certo”, salvar a vida em São Paulo, fez toda a diferença para os brasileiros mais pobres.

E é isto que o filme conta, acompanhando esta trajetória do nascimento em Garanhuns até a prisão do Lula e o enterro da D. Lindu em 1980. Sofre como qualquer filme que compacta 35 anos de história em duas horas, com alguns saltos no tempo que podiam ser melhor amarrados na minha opinião, mas ainda assim foram boas as escolhas dos fatos destacados, do elenco, e o cuidado na filmagem.

Irrita um pouco o merchand em excesso da Brahma, com guaranás e cervejas com os rótulos sempre visíveis, mas patrocínio é patrocínio… aliás, nos créditos iniciais, após o aviso ‘este filme não contou com nenhum incentivo fiscal, etc, etc’, a lista de patrocinadores parece uma carteira da Bovespa… Taí, podiam fazer um índice composto com as patrocinadoras do filme ;)
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Não é brilhante mas é um bom filme, e vale pra gente conhecer um pouco melhor a trajetória d’o cara :)

Sobre “Quarto de Despejo”: Carolina era uma favelada negra semi-alfabetizada que morava na favela do Canindé na década de 1950 com três filhos pequenos, sustentando-os na medida do possível como catadora de papel e, entre uma batalha e outra, escrevia um diário onde contou o cotidiano seu e da favela. Descoberta por um jornalista, conseguiu publicar um livro com fragmentos do diário abrangendo de 1955 a 1o de Janeiro de 1960. O livro foi um fenômeno de vendas e ela consegui realizar o sonho de ter uma casa de alvenaria. Publicou mais alguns livros, ficou conhecida mundialmente – foi tema de documentário na Alemanha – e finalmente morreu pobre e esquecida em seu país em 1977.
Do livro, em 28 de Maio de 1959: “… A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.”

Aconselho a leitura para todos que querem conhecer um pouco da miséria e do que é passar fome sem ser nas dietas pré-verão ou nos jejuns pré-exame de sangue.

Aqui na Livraria Cultura, classificado com ‘infanto juvenil’!

  1. Andrey
    6, janeiro, 2010 em 14:15 | #1

    É, uma história tão bonita. Pena que no final agente viu que o príncipe encantado virou um sapo, com todas as verrugas da corrupção: mensalões e dinheiro na cueca.
    O filme se trata de propaganda, patrocinada por empresas que aposto, tem contrato com o governo, e subsidiado por sindicatos … nenhum dinheiro público? Não necessariamente.
    Claro que o Lula fez sucesso, nacional e internacional, mas pergunto, a que preço? Quem vai pagar essa conta do aparelhamento, dos 34 ministérios, da corrupção, da petrosal (a estatal da falácia). Porque esse senhor com tanto apego ao poder e tanta popularidade não consegue passar uma reforma política: Porque, segundo suas próprias palavras, o Brasil sempre foi assim. E já que fez acordo com o Judas, com Pilatos, com Fariseus e etc, não vai querer prejudicá-los, certo?
    Até essa espantalha que ele escolheu já sabe que tem que entrar, manter a cadeira quentinha pra ele voltar em 2014.
    O Lulismo é um movimento político social-continuista-conformista.

  2. 6, janeiro, 2010 em 14:47 | #2

    Andrey, Andrey… como diria um amigo nosso, dois erros não fazem um acerto, mas não resisto: por favor faça o exercício de aplicar os mesmos critérios estético-anfíbios para os governos FFHHCC, Serra, Kassab, etc. Tanto na avaliação quanto no tom, você verá que terá tanto ou mais assunto para discutir.
    Quanto ao preço da conta, certo, terá sim, concordo… e vou esperando enquanto pago as do governo anterior.
    Sobre apego ao poder: devia ter apostado as 7 Spitfires com você, daí você pagava ao Milton :)
    Reforma política: escreva ao seu Senador e ao seu deputado cobrando.
    Sobre Lulismo, leia http://www.slideshare.net/LuisNassif/razes-sociais-e-ideolgicas-do-lulismo Saiu na revista do Cebrap.
    E quanto ao filme ser propaganda, sinceramente, acho que o Lula faz mais propaganda do filme do que o filme do Lula, portanto se há algum oportunismo foi do Barreto (o pai, não o filho). Talvez se os leitores da Veja se cotizarem dê para fazer um curta com a trajetória do Serra ;)

  3. Andrey
    6, janeiro, 2010 em 15:26 | #3

    Impressionante! Porque sempre que se tenta falar algo do Lula alguém invoca o FHC e tenta comparar? Me deixa falar mal do Lula, pô, sem rebater meus argumentos com acusações ao FHC/PSDB/DEM etc!

    A resposta é: Falar mal do governante atual, o Lula no caso, é criticar o PT, e quem não está conosco, está contra nós e se está contra é porque vota no PSDB ou DEM e portanto temos que atacar o FHC!

    Vamos, eu concordo que o FHC/DEM/PSD é pior.
    Feito isso, tenham coragem petistas, lulistas ou que quer que sejam. Defendam o Lula sem ficar fazendo a comparação pra provar quem é menos ruim…

  4. 6, janeiro, 2010 em 16:07 | #4

    Putz, não tenho sido petista ou lulista nos últimos tempos. Lulista no expectro político, digo, pois pode-se até me considerar lulista na admiração da figura e sua história.
    Portanto deixo você falar mal do Governo do Presidente Lula à vontade aqui neste post sobre um filme e sobre pobreza, fome e superação.
    Concordo que não há de se comparar para se defender, minha resposta é provocação, pois te conheço há uns 3 presidentes e nunca o vi com um discurso tão eivado de raiva por motivos que, a meu ver, são os mesmos dos governos anteriores. Mas por favor veja que nem tudo que respondi foi invocando outros.

  5. Andrey
    6, janeiro, 2010 em 18:14 | #5

    Beleza, vou entender esse filme do Lula como o “Diário de Motocicleta”, do Che: Um filme sobre um jovem inocente e idealista, que não pega em arma alguma. Antes da metamorfose o filme acaba.
    Quanto às minhas críticas serem maiores, podes crer que eu fiquei mais politizado desde que nos conhecemos, e muito menos inocente com relação a políticos. Além disso eu realmente esperava mais honestidade do Lula e do PT do que aquela do governo anterior. Você não? Cadê os críticos do Collor? O último bastião da moralidade política.
    Quanto ao Serra, se você acha que eu gosto dele, se engana, trata-se de um mentiroso com registro em cartório. Democraticamente, terei que votar em quem tiver chance de evitar a Dilma (a Dmitri Medvedev brasileira), essa fantoche sim me desagrada muito e tem uma biografia/”ficha corrida” que não apoio de maneira alguma.

  6. 8, janeiro, 2010 em 23:30 | #6

    Atendo-me ao aspecto cinematográfico, você foi o primeiro a dizer que o filme não é um lixo completo… Eu só vi o trailler e me pareceu uma porcaria sem fim. Depois de ler o seu post, acho que vou me arriscar numa sala das mais baratinhas (que tal Lilian Lemertz numa quarta-feira?). Se o filme for uma merda, prepare-se pra ouvir reclamações minhas!

  7. 9, janeiro, 2010 em 06:34 | #7

    Bem, além do Lilian daqui a algum tempo, você pode procurar alguma sessão gratuita em algum sindicato ;) E de qualquer maneira estou preparado para ouvir reclamações, meus critérios cinematográficos estão cada vez menos exigentes… últimamente são: passou a mensagem, entendi, gostei. Se tiver um plus a mais, gostei mais ainda. Daí minha implicância com os franceses.

  8. Emerson
    21, janeiro, 2010 em 08:57 | #8

    Como disse o Theo: foi a primeira crítica favorável ao filme que li. De qualquer maneira só vou vê-lo quando sair em DVD mesmo.

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