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Seu Aristides

Em um sábado ensolarado, ao acompanhar meu pai ao mercadinho do Seu Romualdo, enquanto eu tomava minha cerveja e ele a sua infalível Ypioca, batuquei o balcão e cantarolei de passagem “Se acaso você chegasse/No meu chatô e encontrasse/Aquela mulher que você gostou”, e, surpreso, ouvi o resto completo “Será que tinha a coragem/De trocar nossa amizade/Por ela que já lhe abandonou?/Eu falo porque essa dona já mora no meu barraco/À beira de um regato/E de um bosque em flor/De dia me lava a roupa/De noite me beija a boca/E assim nós vamos vivendo de amor” da boca dele, num ritmo até razoável pr’um espanhol cantando samba.

Justo meu pai, que eu nunca havia visto ouvindo uma música sequer de moto próprio, completou a letra do Lupicínio que eu nunca havia decorado. Foi aí, quando já não morava mais com ele, que constatei empiricamente que, após a fase mais aguda da adolescência, nada melhor que um pouco de distância para nos reaproximar de nossos pais.

Descoberto o samba, daí em diante aproveitei cada momento que pude para entrevistá-lo e resgatar o possível de uma história que, por conta de temperamentos e demandas de sobrevivências, fomos relapsos em registrar. Então descobri que meu pai, para além do Pai para mim e para meus irmãos, do Aristides de minha mãe, e do Tidão de minha avó, era também o Seu Ari no seu ramo de trabalho, e que lá, como em casa, era muito respeitado. Que ensaiou ser jogador de futebol e locutor de rádio. Que conheceu minha mãe em um ponto de ônibus na Penha… bem, foi pouco tempo e rala memória para guardar tudo o que eu devia.

Antes disso as lembranças vividas eram as únicas memórias. Vê-lo chegar em casa, à noite nos dias de semana e à tarde aos sábados, com o jornal embaixo do braço, o maço de Shelton, às vezes um pacote com alguma comida ou uma garrafa qualquer, dos quais se desfazia antes de jantar e ir para a TV ou ler um dos seus inúmeros livrinhos de faroeste. Da paçoca com o guaraná caçulinha que me pagava quando eu conseguia acompanhá-lo ao bar com os amigos. Dos almoços de domingo nos quais ele comandava a cozinha e nos quais só comia após todos já terem almoçado. E tantos outros pequenos detalhes e hábitos do cotidiano que percebi com o tempo serem as memórias que melhor guardamos e que dão mais saudades das pessoas que perdemos.

Gosto de pensar que herdei dele coisas boas que tenho hoje, a responsabilidade por vezes exarcebada, a honestidade e correção moral da qual tanto me orgulho, a preocupação com o próximo que também me faz almoçar depois de todo mundo quando eu preparo um almoço… bem, o tempo e a saudade agem como filtros e nem todo o espólio é admirável, não são todas as minhas características herdadas eu posso me gabar, mas gosto mais de perceber que eu e meus irmãos, meus sobrinhos, e agora minha sobrinha-neta, carregamos um pouco dele e de minha mãe para o futuro.

Hoje seu Aristides completaria 76 anos e faz muita falta, mas o alicerce que me serve de norte quando minha própria bússola falha ele continua me proporcionando. E como acho que nunca lhe agradeci como devia, vai aqui neste post, para uma binária posteridade:

Parabéns, Pai, obrigado!

Nota: a gravação que subi é com o Nelson Gonçalves e Elza Soares… queria uma com o Noite Ilustrada, mas não achei.

Categories: Sobre a vida
  1. Vanderly
    26, outubro, 2009 em 23:44 | #1

    Que linda declaração de amor, meu amigo!
    Emocionei-me!
    É assim,o lado positivo da distância dos que amamos é justamente perceber o valor inerente que não notávamos,exatamente pela proximidade.Ironias do percurso…
    Vou ver se consigo tua versão do Noite Ilustrada com o “seu” Vander, afinal ele trabalhou com o próprio e como você já atestou, pai sempre tem assuntos que desconhecemos…

  2. Thais
    21, novembro, 2009 em 16:35 | #2

    Obrigada por nos contar um pouquinho da história dele que tb não conhecíamos…
    Sinto muita falta deles, mas tb alegria por termos convivido tão perto…
    Tb certeza que a Vitória teria adorado conhece-lo e tb sentiria orgulho por ser “Domingues”.
    Tenha a certeza que um dia nos encontraremos…
    Amamos vcs…

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