Alka-Seltzer

Lembrou da história, que já viu creditada desde a Malba Tahan até a Abraham Lincoln, enquanto digeria mais uma separação indigesta, tentando entender o porquê de mais um fim. A história era a do imperador chinês que convocou todos os sábios a seu alcance para obter uma frase que o auxiliasse em todas as situações e, ao final, obteve-a de um servo. A frase era “E isso também passará.” Adequada para enfrentar os desastres e para não se acomodar com o sucesso.

Lembrou da história porque divagava sobre “movimento“, ouvindo-o na britadeira da obra ao lado, observando-o na fumaça de seu cigarro, sentindo-o na efervecência de um alka-seltzer.

Pensou nas evoluções da Terra no tempo e no espaço, no bigbang, no dia e na noite, nas fases da lua, nas marés, no vento. Considerou os movimentos da humanidade e suas sociedades, as eras, os ciclos, as guerras, a evolução em seus milhões de anos. E na viagem do espermatozóide vitorioso, o bater do coração, as contrações do parto, o circular do sangue, os pulsos das conexões do cérebro.

Lembrou da sua infância, quando se divertia com as fórmulas do laboratório de química, que quando reagiam moviam-se para outra cor; dos jogos com os amigos na imensidão da rua calma e dos terrenos baldios da época, que ocupavam, em ação, como se fossem teatros de guerra; das expansões dos horizontes, o primeiro proporcionado pela primeira bicicleta, o segundo pelo alvará obtido para pegar o ônibus para a Sé e fazer a primeira exploração solitária a uma livraria, o terceiro quando conseguiu continuar os estudos longe de casa, e os outros que dali vieram, variando em meios e graças, mas sempre em movimento.

Viu o movimento do sexo, da descoberta manual e exaustivamente explorada do seu, ao do delas, no início sofrendo para acertar a velocidade enquanto desejava ter mais braços, mãos, línguas e pênis para tocar toda a superfície e penetrar cada orifício, até que aprendeu que cada par tem seu ritmo e que os membros que tinha, mais tempo e movimento, já eram o suficiente. Compreendeu então que sexo é movimento.

E constatando que havia movimento em tudo, e que ele é imprescindível em tudo, concluiu que cada mudança sua em sua vida também era, cada um, um movimento, e que o seu conjunto de movimentos havia sido necessário para sua vida. E percebeu que cada relação pessoal da sua história o havia ligado a indivíduos em seus próprios movimentos necessários, amalgamando-os aos seus, e que às vezes nesta mistura havia surgido amor. E em outras, dor. Mas tudo movimento.

Portanto ele tinha mais é que ser grato por poder, algumas vezes na vida, compartilhar os seus com os das pessoas que pôde e pode amar; e afagar a dor, pois isso também passará.

E seu alka-seltzer parou de borbulhar.

Categories: Literatura, Sobre a vida
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