Página Inicial > Cotidiano, Literatura > Boas revistas

Boas revistas

Outro serviço de utilidade pública, três dicas para quem, como eu, gosta de ler boas, longas e profundas reportagens e entrevistas, ainda mais quando os temas são relevantes e abordados com leveza e, na maioria das vezes, otimismo – principalmente a “Brasileiros” e a “Revista do Brasil“, que acreditam no Brasil sem serem ufanistas. E a “Piauí“, sempre com temas inusitados e bom humor.

Nota: se você lê a Veja e gosta, se identifica, não vale nem a pena ler estas, mas se você lê e fica meio ressabiado, incomodado, acha que aquela voz que escreve todas as matérias está um tanto paranóica e não encontra muito eco na realidade, experimente estas… são mensais, portanto preenchem 3 semanas, e na que faltar você descansa, afinal, quem lê tanta notícia?

Brasileiros

Esta edição está demais, se tivesse obituário até ele eu leria. Entre outras boas, duas entrevistas deliciosas, uma com o Tom Zé, pelado na capa, que não culpa ninguém pelo seu ostracismo: “Quando você não é tocado no Brasil, tem uma coisa de dizer que você é vítima da cultura de massas, como eu não tenho vocação para vítima, como eu não era tocado, eu fui trabalhar em casa. Eu não era chamado para trabalhar na rua, não era chamado para entrevista, não era chamado para porra nenhuma. Eu ia pra casa trabalhar. Talvez, o que me fez trabalhar durante meu tempo de ostracismo foi que a queixa não era meu lema. Não gosto de fazer queixa e culpo a mim mesmo.”.

brasileiros
E a com o Lima Duarte, que tem uma passagem que me tocou: “Em 1948, eu morava em uma pensão em São Paulo, quando meu pai apareceu – … Eu tinha 18 anos quando meu pai bateu na porta do quarto com um embrulho na mão e disse : “Veste este terno que eu lhe comprei, que vamos para Santos conhecer o mar”. Nem eu nem meu pai conhecíamos o mar. Descemos a Serra e, quando chegamos na praia, vi o mar pelo olhar deslumbrado do meu pai. Então, fui alugar um calção para entrar na água, e meu pai não quis tirar o terno – ficou sentado na calçada só observando a imensidão do mar. Mas ele me pediu que fosse pegar um pouco da água salgada do mar, num copo, e eu fui. Quando voltei, ele cheirou a água do copo, colocou um pouco na língua e fez uma careta de satisfação. Disse que realmente a água era salgada, e começamos a rir.”
E outras boas reportagens, o que faz a revista merecer o complemento que usa, “A revista mensal de reportagens”. Na última página, a seção “você acredita no Brasil” faz esta pergunta para personalidades várias, nesta a da Dra. Zilda Arns é ótima.

É publicada no meio do mês e custa R$ 9,90.
piaui

Piauí

O desenho aí do lado é do R. Crumb, que conheci através da extinta Animal faz muitos anos, que apresenta sua versão d’O Gênesis em quadrinhos nesta edição. A seção ‘esquina‘, entre outros casos, conta a história da Monga, que quem já foi ao Playcenter já conhece.
Tem também, no “diário“, as aventuras de um pizzaiolo italiano na Coréia do Norte. E uma matéria ótima sobre o trabalho de intérpretes. Ah, e uma reportagem “diferenciada” sobre o aniversário de 15 anos da filha da Silmara Sukarno (!?), uma hiper-rica, que me fez reabilitar meus planos para uma ONG em prol da distribuição de renda (que nunca foi pra frente por falta de patrocínio… não sei por quê ;) ).

E você sabia que o Rio tem a maior frota de ônibus do Brasil? Eu não, descobri aqui.

Todo início do mês a R$ 9,90.

Revista do Brasil

Esta eu conheci mais recentemente, devorei a pilha de antigas do meu compadre Sérgio e comprei a última em banca. O mesmo modelo de reportagens e entrevistas gostosas, nesta a do Jaguar está impagável… uns trechos:
“Já broxei muito. Você não sabe como é bom broxar. O cara que não broxa é como um vibrador: liga, aperta o botão, e pronto. É uma delícia ficar insistindo. E tem outra coisa: a mulher adora quando consegue fazer o cara sair do prejuízo, se sente orgulhosa, uma heroína. O cara que vive de pau duro não pode dar este prazer à mulher.”

dobrasil
“Vai ao médico, se cuida?
Eu não me cuido porra nenhuma. É um milagre. Não tenho horário para comer, não faço ginástica, não nado. No máximo um quarteirão, de bar em bar…”
… E encerra assim:
“Você chegou a dizer que quando morresse queria que suas cinzas fossem espalhadas por todos os bares em que bebeu. Vai ter cinza suficiente?
Para você ser cremado, é preciso registrar em cartório, né? Fui lá e o cara me perguntou “Como você quer que suas cinzas sejam espalhadas?” E eu: “Quero que as minhas cinzas sejam espalhadas por todos os bares em que bebi no Rio”. O cara fez a mesma pergunta: “Será que vai dar?” Eu disse: “Se não der, é só pegar um pangaré velho, queimar, e juntar tudo”. Mas como eu não confio muito nestes caras de hoje, eu mesmo vou fazer um ensaio geral da minha cerimônia de cinzas.
Já começou a ensaiar?
Ainda é cedo, mas já fiz a lista: serão dez bares por dia durante alguns meses. Minha mulher acha meio mórbido, mas estou decidido. A ideia é ótima. Meus amigos também acham. Estão todos animadíssimos com o meu funeral.”

Ainda não sei em que parte do mês é publicada. Custa apenas R$ 5,00.
Categories: Cotidiano, Literatura
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. Nenhum trackback ainda.