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Arquivo de 3, dezembro, 2009

Interfaces

3, dezembro, 2009 3 comentários

Em meados da década de 80 do século passado (uau, como esta frase envelhece a história!) os bancos iniciavam a implantanção do auto-atendimento, e especificamente no Banco do Brasil o que havia de ‘auto’ era um terminal muito simples, parecido com uma máquina de escrever elétrica IBM com um display de cristal líquido e uma pequena impressora acoplada, que só servia para o cliente, após informar os dados – acho que nem havia cartão magnético – obter um extrato ou saldo impresso.
Como era novidade e era desejado substituir a cultura da boca do caixa para o auto-atendimento, os caixas eram instruídos a, quando o cliente solicitasse algo disponível no terminal, solicitar a ele que fosse até lá e se virasse sozinho.

Nesta época minha irmã, que era caixa no Banco do Brasil da Penha que ficava numa rua repleta de lojas bem no centro comercial e estava acostumada a atender os donos das lojas que iam depositar a féria do dia e controlar a conta, um dia atendeu uma senhora que queria um extrato da conta da loja do marido que estava doente e não podia ir ao banco, coisa que ela não costumava fazer. Como era apenas um extrato, minha irmã a orientou a ir ao terminal e voltou ao trabalho. Uns bons minutos depois a mulher volta, com lágrimas nos olhos, envergonhada, pedir ajuda pois não havia conseguido se comunicar com a maldita máquina e, poxa, precisava do extrato.

A Vivi me contou esta história ainda em meados da década de 80 (uau, como esta frase me envelhece!) e aí quem ficou com lágrimas nos olhos fui eu, imaginando a impotência da senhora, provavelmente uma dona de casa eficaz operadora de diversos aparelhos da vida doméstica, incapaz ante a um ininteligível aparelho da era da informática.

De alguma maneira esta história me ficou marcada – me emociona até hoje – e me orientou na vida profissional, quando em algum momento comecei a trabalhar na área de produtos e me embrenhei em definir interfaces de programas com o usuário, o fazia sempre lembrando que um ser humando desacostumado com operar computadores ocasionalmente precisaria utilizá-lo.

Eu não costumo ter problemas para conversar com máquinas – meu último foi com uma máquina no Metrô Sé, que me roubou as últimas moedas e a lata de Coca-Cola Zero. Os aparelhos e programas são em número limitado, normalmente vem com manuais, e os conceitos que norteiam as definições de interfaces com o usuário são públicos e compartilhados.

Meu dicionário define

interface

s. f.

1. Inform. Dispositivo (material e lógico) graças ao qual se efetuam as trocas de informações entre dois sistemas.

2. Didát. Limite comum a dois sistemas ou duas unidades que permite troca de informações.

3. Por ext. Interlocutor privilegiado entre dois serviços, duas empresas, etc.

que amplio resumidamente com “disponibilização organizada, e desejavelmente amigável, de sinais e métodos que informam e orientam o interlocutor a como perguntar e obter sua resposta.”

E isso tudo funciona muito bem, obrigado, com as diversas máquinas e softwares que tenho que acessar no dia-a-dia (exceto a máquina que me roubou a Coca-Cola!), pois há todo o conjunto de costumes e regras que orientaram quem definiu as interfaces e me orientam quando preciso utilizá-las.

Mas nestes últimos reclusos dias tenho pensado mesmo é nas interfaces entre as pessoas, considerando que são basicamente comunicações, que ganharam muito em possibilidades e complexidade nos últimos tempos.

Quando nos comunicamos queremos dizer algo aos outros e obter respostas – lembre-se que até um aplauso ou uma vaia são respostas – e há uma organização, uma etiqueta, que rege e permite esta interação, esta interface entre pessoas.

Mas pessoas têm uma variedade que beira o infinito, não vem com manual, nem sempre obedecem as mesmas regras de comportamento que as outras, e nem sempre dão a resposta que esperamos, quando dão. O que torna acessar esta interface algo um tanto mais complicado do que quando com as máquinas.

Agora então, com todas as facilidades modernas, que, mais do que em qualquer outro aspecto da vida, sofisticaram as comunicações entre pessoas com a telefonia e internet e seus inúmeros meios e recursos possíveis de interação, criando ainda mais variáveis a serem consideradas na hora de entabular, ou tentar, uma comunicação com outras pessoas, às vezes me vejo perdido.

É que são hoje tantas as possibilidades e combinações para enviar e receber informações que eventualmente, como a senhora que chorou no terminal, não consigo me entender com elas e desisto.

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