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Arquivo de outubro, 2009

Contrassenso

30, outubro, 2009 Sem comentários

Enquanto tentava remover os últimos vestígios à força, numa autolobotomia urgente e dolorosa, notei que várias coisas na fila da aniquilação só ganharam alguma importância justamente por que precisavam ser destruídas, como se não existissem completamente enquanto o porquê de existirem existia.

Fotos, lembranças, objetos, odores, manchas, letras, papéis, arquivos, acontecimentos, desacontecimentos, prazeres, aborrecimentos. Estavam todos lá este tempo todo sem serem notados, pois logo depois que passaram a existir ocuparam seus lugares de inquilinos no tempo e/ou no espaço disfarçados de nada. E agora, revelados, se agarram aos seus postos como carrapatos, que penam em sair e cobram seu preço em sangue e dor quando finalmente conseguimos arrancá-los.

Os significados de algumas coisas são efêmeros enquanto fazem sentido e perenes quando deixam de fazer.

Categories: Sobre a vida

Seu Aristides

26, outubro, 2009 2 comentários

Em um sábado ensolarado, ao acompanhar meu pai ao mercadinho do Seu Romualdo, enquanto eu tomava minha cerveja e ele a sua infalível Ypioca, batuquei o balcão e cantarolei de passagem “Se acaso você chegasse/No meu chatô e encontrasse/Aquela mulher que você gostou”, e, surpreso, ouvi o resto completo “Será que tinha a coragem/De trocar nossa amizade/Por ela que já lhe abandonou?/Eu falo porque essa dona já mora no meu barraco/À beira de um regato/E de um bosque em flor/De dia me lava a roupa/De noite me beija a boca/E assim nós vamos vivendo de amor” da boca dele, num ritmo até razoável pr’um espanhol cantando samba.

Justo meu pai, que eu nunca havia visto ouvindo uma música sequer de moto próprio, completou a letra do Lupicínio que eu nunca havia decorado. Foi aí, quando já não morava mais com ele, que constatei empiricamente que, após a fase mais aguda da adolescência, nada melhor que um pouco de distância para nos reaproximar de nossos pais.

Descoberto o samba, daí em diante aproveitei cada momento que pude para entrevistá-lo e resgatar o possível de uma história que, por conta de temperamentos e demandas de sobrevivências, fomos relapsos em registrar. Então descobri que meu pai, para além do Pai para mim e para meus irmãos, do Aristides de minha mãe, e do Tidão de minha avó, era também o Seu Ari no seu ramo de trabalho, e que lá, como em casa, era muito respeitado. Que ensaiou ser jogador de futebol e locutor de rádio. Que conheceu minha mãe em um ponto de ônibus na Penha… bem, foi pouco tempo e rala memória para guardar tudo o que eu devia.

Antes disso as lembranças vividas eram as únicas memórias. Vê-lo chegar em casa, à noite nos dias de semana e à tarde aos sábados, com o jornal embaixo do braço, o maço de Shelton, às vezes um pacote com alguma comida ou uma garrafa qualquer, dos quais se desfazia antes de jantar e ir para a TV ou ler um dos seus inúmeros livrinhos de faroeste. Da paçoca com o guaraná caçulinha que me pagava quando eu conseguia acompanhá-lo ao bar com os amigos. Dos almoços de domingo nos quais ele comandava a cozinha e nos quais só comia após todos já terem almoçado. E tantos outros pequenos detalhes e hábitos do cotidiano que percebi com o tempo serem as memórias que melhor guardamos e que dão mais saudades das pessoas que perdemos.

Gosto de pensar que herdei dele coisas boas que tenho hoje, a responsabilidade por vezes exarcebada, a honestidade e correção moral da qual tanto me orgulho, a preocupação com o próximo que também me faz almoçar depois de todo mundo quando eu preparo um almoço… bem, o tempo e a saudade agem como filtros e nem todo o espólio é admirável, não são todas as minhas características herdadas eu posso me gabar, mas gosto mais de perceber que eu e meus irmãos, meus sobrinhos, e agora minha sobrinha-neta, carregamos um pouco dele e de minha mãe para o futuro.

Hoje seu Aristides completaria 76 anos e faz muita falta, mas o alicerce que me serve de norte quando minha própria bússola falha ele continua me proporcionando. E como acho que nunca lhe agradeci como devia, vai aqui neste post, para uma binária posteridade:

Parabéns, Pai, obrigado!

Nota: a gravação que subi é com o Nelson Gonçalves e Elza Soares… queria uma com o Noite Ilustrada, mas não achei.

Categories: Sobre a vida

Prisioneiros

25, outubro, 2009 Sem comentários

Existem batalhas nas quais não devemos fazer prisioneiros, pois cada Convenção de Genebra pessoal exige tratá-los com dignidade e eles têm que ser mantidos vivos, alimentados, saudáveis.

E nós o fazemos.

Sem este cuidado, nesta espécie de guerra que não acaba nunca e que é repleta de batalhas onde sempre restam feridos, haverá um gradual e insustentável aumento de incômodos prisioneiros. Sem opções de solitárias, se agrupam em facções, promovem rebeliões, se tornam violentos, exigem regalias, dão trabalho constante e acabamos por torcer para que fujam.

Mas eles não fogem.

Pois esta guerra também não tem inimigos e não há para onde fugir ou libertá-los. Sem contraparte, não prevê armistícios ou tréguas, e não promove troca de prisioneiros.

Eles continuam lá, em número crescente, consumindo nossos recursos até morrerem.

Mas eles vivem mais do que o razoável.

Portanto, ao investigar a terra arrasada ao fim de cada batalha, não faça prisioneiros. Erga um monumento, se quiser; relate em um livro, se achar louvável; faça um filme, se achar que rende. Mas seja impiedoso e misericordioso e não faça prisioneiros.

Nota: post incidental fruto de ter assistido 3 filmes de guerra em sequência. E de uma rebelião em meu campo de prisioneiros.

Categories: Sobre a vida

Bastardos Inglórios

23, outubro, 2009 2 comentários
As ações de empresas que produzem sangue artificial certamente sobem a cada anúncio de um novo projeto do Tarantino, mas arrisco recomendar este filme mesmo para quem é sensível a violência e cenas sangrentas, pois o diretor acertou bem a mão e quem quer se divertir pode ir sem medo.

Ouvi falar muito da sequência inicial: é realmente ótima, mas mais adiante outras tão boas quanto fazem valer cada centavo investido. E não é só da ação física que vem o divertimento, o filme é repleto de diálogos magistrais e tem uma fotografia de encher os olhos.

Também antes de assistir vi umas entrevistas onde o Tarantino teve que se explicar sobre as mudanças que promoveu na história da 2a Guerra. Bobagem. Cinema é entretenimento, e este é puro.
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Ah, e como se não bastasse, ainda fui apresentado a duas ótimas, e lindas, atrizes européias, Mélanie Laurent melanie e Diane Kruger diane

Sobre a sala: foi um bom trabalho de restauração do Marabá do centro, gerido pela Playarte. Assisti na sala 4, confortável e com boas projeção e som, o único problema é o ar-condicionado barulhento.
Mas atenção: se for lá, leve seu bebedouro! Não há nenhum disponível para os frequentadores – perguntei para um funcionário se eles tinham que comprar a água também e ele me explicou que eles têm uma salinha com água para quem trabalha lá. Quase pedi pra ir…

Categories: Cinema

Viver

19, outubro, 2009 Sem comentários

Para começar a semana com bom astral:

Viver
Teca Calazans
Composição: Ricardo Vilas

Tem que ligar suas antenas
Captar melhor freqüências
Dimensões e vibrações
Que no ar se sente
Tem, tem que usar cinco sentidos
Pra chegar a um relativo
Significado justo simples coerente
O mundo é bola rola rola
A gente sai correndo atrás
Passageiro desse trem
O tempo brinca de seguir
Leio aqui no seu futuro
Uma estrela intensa clareando
Viver, viver
Eu pessoalmente me interesso
Pelo destino desse trem
O tempo mente muito mente
Fazendo crer que ele seguiu
Leio aqui no seu passado
Uma estrela intensa clareando
Viver, viver, viver
O amor é que alimenta a força de viver
O amor é que alimenta
A força de viver, viver
O amor é que alimenta
A força de viver
O amor é que alimenta

Nota: achar esta música foi um achado ;) Estava parcialmente na minha memória faz uns 20 anos e consegui encontrá-la num site meio obscuro… como é de um LP (long play, vinil…) de 1982, não relançado em CD, subi o mp3 inteiro (o nome da música é link).

Categories: Música, Sobre a vida

As suíças do Isaac Asimov

16, outubro, 2009 Sem comentários

Navegando na insônia, achei uma inspiração retroativa para minhas suíças!

Isaac_Asimov Isaac Asimov, que podia até ser garoto propaganda! asimov_trs_1_large

Este post foi patrocinado por Dormibem. Dormibem, não passe a madrugada fazendo posts ridículos. Tome Dormibem e durma… ;)

PS pros nerds com mais de 30: a propaganda é de 82, de um TRS-80.

Insônia

15, outubro, 2009 Sem comentários

Durante a epidemia de insônia que assolou Macondo em um dos cem anos, se comemorou o privilégio de não dormir. Até que, depois de compatilharem acordados os  seus sonhos, os cidadãos começaram a perder suas memórias e lembranças a ponto da cigana que previa o futuro ser paga para preencher o passado.

E eu aqui acordado, tentando lembrar onde li que dormir pouco envelhece a gente mais depressa – o que constato percebendo que esse sono que perco não vai ser devolvido por quaisquer outras horas de sono fora de hora – acho que entendo um pouco mais o Gabo, pois às vezes parece-me que as memórias se gastam de tanto lembrarmos delas.

Categories: Cotidiano, Sobre a vida

Segunda sem carne

6, outubro, 2009 5 comentários

Acabei entrando em uma campanha sem saber: há algum tempo institui um dia sem carne no meu cardápio e calhou de ser segunda-feira.
E ontem lá no Nutrison (Viaduto 9 de julho, 160 – Centro), que tem um buffet bem completo e a comida é boa – preço fixo: R$ 17,80, um jornal colado à parede falava sobre a Segunda sem carne, que pesquisando agora descobri ser uma campanha Marcatista (do Paul McCartney, não do Joseph McCarthy ;) ) e que está sendo adotada aqui em Sampa também:

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Aqui uma lista de restaurantes ou vegetarianos ou que têm opções de refeições sem carne – o que é importante, pois num restaurante ‘normal’ um dia sem carne normalmente implica num dia de fome.

Legal ser 1/7 vegetariano, e com companhia!

Itamar Assumpção

1, outubro, 2009 Sem comentários
A melhor localização do quando conheci sua música é que foi na década de 80, com “Luzia“, que fiquei anos cantarolando sem saber de quem era, até que fui pesquisar – naquela época não havia Google e o Itamar simplesmente não tocava, e não toca :( , nas rádios – e descobri o Itamar. Nesse meio tempo outra música, provavelmente ouvida na Cultura AM, ficou outros tantos anos participando do meu repertório de assobios, “Sei dos caminhos“, dele e da Alice Ruiz, que me tocava tanto musicalmente quanto pela poesia, visto que volta e meia eu não sabia, e ainda não sei, como chegar ao próximo passo. Itamar

Descoberto Itamar, em meados de 90, explorá-lo foi uma aventura musical que até hoje não acabou, já que ainda não consegui ouvir toda sua obra, que de bandeja conheci outros músicos que o acompanharam – ou suas ligações com ele, como Vânia Bastos, Suzana Sales, Tetê e Alzira Espíndola, Ná Ozetti, Alice Ruiz…, e que ano que vem, li na Folha, 26 inéditas comporão dois álbuns que completarão a trilogia iniciada com “Pretobrás – Por que que eu não pensei nisso antes…” e toda sua obra será relançada em uma caixa com 12 CDs.

Para muitos Itamar não é fácil de ouvir na primeira vez, é comum o ouvido não estar acostumado a ouvir “Fan Fin Fon Fin Fun” ou “Ich liebe dich“, mas depois de um mergulho na variedade musical visionária e precursora das suas belíssimas canções, e em sua poesia rica e repleta de vida, para quem fazer sentido não há como não se render e acompanhá-lo dali para trás e para sempre, já que Itamar foi musicar em outras paragens em 2003.

Se aderir, você vai poder curtir uma fossa ouvindo ”Milágrimas” ou “Vou tirar você do dicionário“; ficar apaixonado e tocar “Tua Boca” e “Apaixonite aguda“; estar feliz ao som de “Nega música” ou “Vida de artista“; desopilar com “Vá cuidar da sua vida“, “Coração absurdo“, “Tristes trópicos“, “Beijo na Boca“… poxa, é muita coisa, só para dar um gostinho os nomes das músicas são links para ouvir um trecho delas.

A foto é da Vange Milliet

Categories: Música