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Arquivo de setembro, 2009

Alka-Seltzer

26, setembro, 2009 Sem comentários

Lembrou da história, que já viu creditada desde a Malba Tahan até a Abraham Lincoln, enquanto digeria mais uma separação indigesta, tentando entender o porquê de mais um fim. A história era a do imperador chinês que convocou todos os sábios a seu alcance para obter uma frase que o auxiliasse em todas as situações e, ao final, obteve-a de um servo. A frase era “E isso também passará.” Adequada para enfrentar os desastres e para não se acomodar com o sucesso.

Lembrou da história porque divagava sobre “movimento“, ouvindo-o na britadeira da obra ao lado, observando-o na fumaça de seu cigarro, sentindo-o na efervecência de um alka-seltzer.

Pensou nas evoluções da Terra no tempo e no espaço, no bigbang, no dia e na noite, nas fases da lua, nas marés, no vento. Considerou os movimentos da humanidade e suas sociedades, as eras, os ciclos, as guerras, a evolução em seus milhões de anos. E na viagem do espermatozóide vitorioso, o bater do coração, as contrações do parto, o circular do sangue, os pulsos das conexões do cérebro.

Lembrou da sua infância, quando se divertia com as fórmulas do laboratório de química, que quando reagiam moviam-se para outra cor; dos jogos com os amigos na imensidão da rua calma e dos terrenos baldios da época, que ocupavam, em ação, como se fossem teatros de guerra; das expansões dos horizontes, o primeiro proporcionado pela primeira bicicleta, o segundo pelo alvará obtido para pegar o ônibus para a Sé e fazer a primeira exploração solitária a uma livraria, o terceiro quando conseguiu continuar os estudos longe de casa, e os outros que dali vieram, variando em meios e graças, mas sempre em movimento.

Viu o movimento do sexo, da descoberta manual e exaustivamente explorada do seu, ao do delas, no início sofrendo para acertar a velocidade enquanto desejava ter mais braços, mãos, línguas e pênis para tocar toda a superfície e penetrar cada orifício, até que aprendeu que cada par tem seu ritmo e que os membros que tinha, mais tempo e movimento, já eram o suficiente. Compreendeu então que sexo é movimento.

E constatando que havia movimento em tudo, e que ele é imprescindível em tudo, concluiu que cada mudança sua em sua vida também era, cada um, um movimento, e que o seu conjunto de movimentos havia sido necessário para sua vida. E percebeu que cada relação pessoal da sua história o havia ligado a indivíduos em seus próprios movimentos necessários, amalgamando-os aos seus, e que às vezes nesta mistura havia surgido amor. E em outras, dor. Mas tudo movimento.

Portanto ele tinha mais é que ser grato por poder, algumas vezes na vida, compartilhar os seus com os das pessoas que pôde e pode amar; e afagar a dor, pois isso também passará.

E seu alka-seltzer parou de borbulhar.

Categories: Literatura, Sobre a vida

Bolo de Cenoura

24, setembro, 2009 3 comentários

Retribuindo umas receitas do Théo, do Akelacoisatoda, vai aqui a do meu já tradicional e consagrado Bolo de Cenoura, com a receita original do livro alterada com dicas adquiridas em anos de experiências.

Ah, mas como o mundo evolui, neste resolvi inovar e coloquei chocolate granulado na massa, e ficou bom.

Massa Cobertura
3 cenouras picadas
4 ovos
1 xícara de óleo
2 xícaras de açúcar
3 xícaras de farinha de trigo
1 colher de sopa de fermento em pó
1 pitada de sal
4 colheres de sopa de chocolate em pó
2 colheres de sopa de açúcar
1 colher de sopa de manteiga
2 colheres de sopa de leite

O Bolo
- primeiro peneire o açúcar numa tijela e guarde o que não passar na peneira para usar na cobertura – complete o açúcar da massa se achar que peneirou muito.

- aí é para bater no liquidificador a cenoura, os ovos, o óleo, o açúcar e o sal, mas atenção: não ponha tudo de uma vez no liquidificador antes de ligá-lo! Provavelmente as cenouras vão travar nas lâminas e o motor vai parar… se você persistir vai sair fumaça do aparelho (hummm… acredite). Então bata 1o os ovos e o óleo, depois vá colocando os pedaços de cenoura, aos poucos. Bateu bem? Então agora vá colocando o açúcar, até ficar um creme.

- muito bem, agora sim ligue o forno em uns 200 graus (centígrados). As receitas normalmente pedem para você ligar o forno antes de separar os ingredientes: não se engane, é complô das companhias de gás.

- numa tijela, coloque a farinha e o fermento, misture. Agora vá colocando aos poucos o creme que está no copo do liquidificador, mexendo com uma colher de pau. Depois que colocou tudo que tinha no liquidificador, continue mexendo no sentido horário ou anti-horário, tanto faz. Quando você perceber que estão se formando umas bolhas na massa, não se assuste, só indica que está pronto.

- agora a novidade opcional: coloque chocolate granulado e misture mais um pouco… acho que eu coloquei umas 50 gramas, que era metade da embalagem. Bem, isso é de gosto.

- coloque numa fôrma com buraco no meio e leve ao forno. Demora uns 35/40 minutos para ficar pronto, o que você comprova furando o bolo com um palito e, se sair seco, tire do forno, ponha para esfriar, desenforme quando ficar morno.

A Cobertura
Basicamente é jogar todos aqueles ingredientes (não esqueça de usar o açúcar que você separou) numa panela pequena, ligar o fogo, misturar até ferver, deixar uns 3 minutos, e pronto. Com o tempo você vai ajustando as quantidades para obter a consistência que você mais gosta. Aí é só, ainda quente, despejar no bolo.

Pronto Desenformado

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Virado Coberto

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Comido

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Categories: Cotidiano, Gastronomia

Boas revistas

24, setembro, 2009 Sem comentários

Outro serviço de utilidade pública, três dicas para quem, como eu, gosta de ler boas, longas e profundas reportagens e entrevistas, ainda mais quando os temas são relevantes e abordados com leveza e, na maioria das vezes, otimismo – principalmente a “Brasileiros” e a “Revista do Brasil“, que acreditam no Brasil sem serem ufanistas. E a “Piauí“, sempre com temas inusitados e bom humor.

Nota: se você lê a Veja e gosta, se identifica, não vale nem a pena ler estas, mas se você lê e fica meio ressabiado, incomodado, acha que aquela voz que escreve todas as matérias está um tanto paranóica e não encontra muito eco na realidade, experimente estas… são mensais, portanto preenchem 3 semanas, e na que faltar você descansa, afinal, quem lê tanta notícia?

Brasileiros

Esta edição está demais, se tivesse obituário até ele eu leria. Entre outras boas, duas entrevistas deliciosas, uma com o Tom Zé, pelado na capa, que não culpa ninguém pelo seu ostracismo: “Quando você não é tocado no Brasil, tem uma coisa de dizer que você é vítima da cultura de massas, como eu não tenho vocação para vítima, como eu não era tocado, eu fui trabalhar em casa. Eu não era chamado para trabalhar na rua, não era chamado para entrevista, não era chamado para porra nenhuma. Eu ia pra casa trabalhar. Talvez, o que me fez trabalhar durante meu tempo de ostracismo foi que a queixa não era meu lema. Não gosto de fazer queixa e culpo a mim mesmo.”.

brasileiros
E a com o Lima Duarte, que tem uma passagem que me tocou: “Em 1948, eu morava em uma pensão em São Paulo, quando meu pai apareceu – … Eu tinha 18 anos quando meu pai bateu na porta do quarto com um embrulho na mão e disse : “Veste este terno que eu lhe comprei, que vamos para Santos conhecer o mar”. Nem eu nem meu pai conhecíamos o mar. Descemos a Serra e, quando chegamos na praia, vi o mar pelo olhar deslumbrado do meu pai. Então, fui alugar um calção para entrar na água, e meu pai não quis tirar o terno – ficou sentado na calçada só observando a imensidão do mar. Mas ele me pediu que fosse pegar um pouco da água salgada do mar, num copo, e eu fui. Quando voltei, ele cheirou a água do copo, colocou um pouco na língua e fez uma careta de satisfação. Disse que realmente a água era salgada, e começamos a rir.”
E outras boas reportagens, o que faz a revista merecer o complemento que usa, “A revista mensal de reportagens”. Na última página, a seção “você acredita no Brasil” faz esta pergunta para personalidades várias, nesta a da Dra. Zilda Arns é ótima.

É publicada no meio do mês e custa R$ 9,90.
piaui

Piauí

O desenho aí do lado é do R. Crumb, que conheci através da extinta Animal faz muitos anos, que apresenta sua versão d’O Gênesis em quadrinhos nesta edição. A seção ‘esquina‘, entre outros casos, conta a história da Monga, que quem já foi ao Playcenter já conhece.
Tem também, no “diário“, as aventuras de um pizzaiolo italiano na Coréia do Norte. E uma matéria ótima sobre o trabalho de intérpretes. Ah, e uma reportagem “diferenciada” sobre o aniversário de 15 anos da filha da Silmara Sukarno (!?), uma hiper-rica, que me fez reabilitar meus planos para uma ONG em prol da distribuição de renda (que nunca foi pra frente por falta de patrocínio… não sei por quê ;) ).

E você sabia que o Rio tem a maior frota de ônibus do Brasil? Eu não, descobri aqui.

Todo início do mês a R$ 9,90.

Revista do Brasil

Esta eu conheci mais recentemente, devorei a pilha de antigas do meu compadre Sérgio e comprei a última em banca. O mesmo modelo de reportagens e entrevistas gostosas, nesta a do Jaguar está impagável… uns trechos:
“Já broxei muito. Você não sabe como é bom broxar. O cara que não broxa é como um vibrador: liga, aperta o botão, e pronto. É uma delícia ficar insistindo. E tem outra coisa: a mulher adora quando consegue fazer o cara sair do prejuízo, se sente orgulhosa, uma heroína. O cara que vive de pau duro não pode dar este prazer à mulher.”

dobrasil
“Vai ao médico, se cuida?
Eu não me cuido porra nenhuma. É um milagre. Não tenho horário para comer, não faço ginástica, não nado. No máximo um quarteirão, de bar em bar…”
… E encerra assim:
“Você chegou a dizer que quando morresse queria que suas cinzas fossem espalhadas por todos os bares em que bebeu. Vai ter cinza suficiente?
Para você ser cremado, é preciso registrar em cartório, né? Fui lá e o cara me perguntou “Como você quer que suas cinzas sejam espalhadas?” E eu: “Quero que as minhas cinzas sejam espalhadas por todos os bares em que bebi no Rio”. O cara fez a mesma pergunta: “Será que vai dar?” Eu disse: “Se não der, é só pegar um pangaré velho, queimar, e juntar tudo”. Mas como eu não confio muito nestes caras de hoje, eu mesmo vou fazer um ensaio geral da minha cerimônia de cinzas.
Já começou a ensaiar?
Ainda é cedo, mas já fiz a lista: serão dez bares por dia durante alguns meses. Minha mulher acha meio mórbido, mas estou decidido. A ideia é ótima. Meus amigos também acham. Estão todos animadíssimos com o meu funeral.”

Ainda não sei em que parte do mês é publicada. Custa apenas R$ 5,00.
Categories: Cotidiano, Literatura

Bares onde fumar bebendo

21, setembro, 2009 Sem comentários

Serviço de utilidade pública para fumantes botequeiros, dois bares em São Paulo com mesas na calçada onde podemos fumar tomando aquela cervejinha numa noite sem chuva:

Bar da Dida
Rua Dr Melo Alves, 98 – Jardins
Ambiente calmo e agradável e atendimento eficiente, após as 20:30 ocupa o estacionamento da loja ao lado, que comporta umas 10 mesas. E tem cinzeiros.

Choperia Nova Era
Rua Vergueiro, 709 – Liberdade (ao lado o Metrô Vergueiro)
Ser atendido exige um certo esforço para chamar a atenção, e tem poucas mesas na calçada – dentro é grande, sem cinzeiros. Música ao vivo, normalmente com repertório básico de barzinho (Djavan, Oswaldo Montenegro, Zé Ramalho, Zélia Duncan, Djavan, Djavan, e etc :) ). Perto de colégio e faculdade, portanto não vá às sextas se quiser sossego.

Categories: Cotidiano, São Paulo

Solo le pido a Dios

15, setembro, 2009 1 comentário

Algumas músicas tocam n’alma…

Letra y música de León Gieco
Interpretada por Mercedes Sosa

Categories: Música

A sinceridade da periferia

14, setembro, 2009 2 comentários

Faz  meses que cultivo cá minhas suíças, ciente desde o início de que ia ser alvo de chacotas dos amigos e, eventualmente, de anônimos pelas ruas. O caso dos amigos foi, e é, fato: de Logan a Nazi, tenho ignorado todas a indiretas pr’eu usar o barbeador. Mas no dia-a-dia, pelo centro e adjacências, passo incólume, misturado a outros tantos personagens, digamos, esquisitos… só às vezes noto um certo olhar aqui ou acolá – fora crianças, que às vezes cutucam seus pais ao me verem… mas criança é sempre inaceitavelmente sincera, né? – , então em geral caminho sossegado e sigo, estoicamente, com meu visual anacrônico.

Mas é só ir para a periferia que a coisa muda…

No semáforo para acessar a Radial, ao eu recusar uma limpeza no parabrisa: “Ô Wolverine, então dá uma moedinha…

A garçonete do restaurante nordestino na Penha em que almoço vez em quando: “E aí? Quando é que você vai tirar esse negócio da cara???“.

No supermercado lotado lá na Vila Matilde, logo ao entrar para cuidar do abastecimento de cervejas pr’uma festa, um carinha comenta, alto: “Ih, olha lá o Wolverine!“, e o amigo completa “Só se for depois da gripe suína…“.

Na padaria Internacional, lá na Patriarca, chego no balcão e a balconista, que estava de costas, ao se virar e me ver grita “Que susto!“.  Aí quem se assustou foi eu, “Tô tão feio assim?“. A mulher, séria e, juro, meio brava, “Tá sim, com esse negócio na cara! Tá parecendo um…, sei lá, um macaco! Que susto, moço!

Pois é, sem consideraçõs estéticas (comentários neste sentido serão sumariamente recusados :) ), concluo que o pessoal na periferia é definitivamente mais sincero e despojado de inibições, falam o que sentem e zombam de quem querem – levando em conta que não ando armado e não tenho garras retráteis de adamantium. E, sinceramente, acho é bom, torna a vida, às vezes já tão pesada, mais leve… até a minha, pois me divirto ;)

Idiossincrasias

11, setembro, 2009 Sem comentários

Adorar jiló, ser fã do Belchior, e



torcer pra Lusa ;)

Categories: Cotidiano, Sobre a vida