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Arquivo de 5, agosto, 2009

Fumar em São Paulo – a13.541

5, agosto, 2009 12 comentários

Aos 14 anos, em meados de 1986, num ponto de ônibus na Vila Matilde, dei meu primeiro trago num Free e, tonto, iniciei a série, ainda crescente, de milhões de tragos que tanto participaram da minha vida.

Antes deste marco eu já fumava, desde criança na tabela passiva da convivência de uma família quase 100% fumante, e desde alguns meses antes meus próprios cigarros, furtados da mesada ou do maço de um dos meus pais (Shelton se do meu pai, Charm se da minha mãe). Fumar foi o caminho natural de adesão à tradição familiar e à de boa parte da minha geração, no entanto até aquele momento eu não tragava: a fumaça percorria apenas o caminho da boca ao nariz, pois eu simplesmente não sabia que tinha que respirar o negócio… não haviam manuais de tabagismo!
Até que um dia observei mais atentamente um fumante que demorava um bocado a mais do que eu para liberar a fumaça e resolvi, após algumas considerações, que a única maneira disto ocorrer com a fumaça seria inalando-a. Feito, a ignorância só me conseguiu poupar uns poucos dias de saúde.

Fumar, além da ilusão de independência e maturidade que proporcionava, me incluia em um grupo, o dos independentes, maduros, e fumantes! Na escola o cigarro para os outsiders – os que não tinham nenhuma inclinação para o esporte ou para formar grupos de aporrinhação aos outsiders – era uma senha: reconhecíamo-nos nos sinais de fumaça e nos conhecíamos serrando coletivamente cigarros uns dos outros, até que conseguimos formar uma turma auto-sustentável composta de 90% de fumantes.
No início a prosmicuidade do fila fazia com que trocássemos regularmente de marca, até que cada um, depois de alguns meses, adotou o seu de prefefência: eu LM azul, o Valcir Plaza curto, o Boys com Galaxy, a Rô acho que era Free, o Will e o César, Holywood. Sem nunca abandonar o sempre popular Simidão, que preenchia as lacunas aos finais das mesadas.

Naquela época, fora da sala de aula e dos coletivos, fumava-se em qualquer lugar e não existiam ‘não-fumantes’, apenas ‘ex-fumantes’, que eram os únicos que protestavam contra a fumaça. Fumávamos nas reuniões internas do grêmio, nas sessões de teatro que terminavam num boteco qualquer – nunca encenamos uma peça, mas fizemos a alegria dos donos de botecos da Penha, já que não havia qualquer mal em vender cerveja e cigarros para qualquer um – no cinema, nos ônibus de turismo, nas filas em bancos, no trabalho. Creio que haviam leis contra o fumo na maioria destes ambientes, mas sei lá por qual motivo apenas nos ônibus urbanos, e em São Paulo capital, a proibição era respeitada.

De lá pra cá, enquanto meu vício se sofisticava – passei por inúmeras marcas até parar no Marlboro – e aumentava – parti de 1 maço por semana para atuais 2 por dia, num dia bom – ele sobreviveu a algumas tentativas de separação, até que percebi que, a cada vez que voltava a fumar, voltava fumando mais e mais fortes cigarros, e desisti de tentar parar.

Durante muitos anos continuei fumando com liberdade em quase todos os lugares impensáveis hoje em dia: nos corredores dos cursos noturnos, na mesa de trabalho ao lado de não fumantes, em simplesmente qualquer bar ou restaurante – com um curto respeito às nossas refeições – , nos aviões… sim, os aviões eram divididos ao meio por uma cortininha mágica que separava as áreas de fumantes e não-fumantes (ah que saudade dos Electras da ponte Rio-São Paulo…) e impedia que a fumaça dos primeiros invadisse a atmosfera dos segundos.

Nesse percurso, além do meu pulmão e vários sofás e tapetes, também vários momentos da minha história ficaram marcados pelo cigarro, como a namorada que começou a fumar quando namorávamos – e não parou depois que terminamos; a rodinha de irmãos fumantes no velório do meu pai que sofreu de câncer, todos de cigarro na mão e falando de parar de fumar; a paquera que perdi em Hamburgo ao sair para comprar cigarros – quando voltei… ah, deixa pra lá ;) ; os dias sem grana onde tive que optar entre o cigarro e um lanche (venceu o cigarro); as caminhadas noturnas quando o estoque acabou no meio da madrugada; o fôlego que percebi que perdi quando precisei dele… bem, bem sei, todas ruins.

E aí as coisas começaram a mudar depois da metade da década de 90: primeiro surgiram as áreas de fumantes nos restaurantes, depois a proibição total no ambiente de trabalho e nas áreas comuns de qualquer ambiente coletivo, nos aviões também a proibição foi rápida e definitiva (quero saber até quando vão fabricar os aparelhos com os obsoletos avisos de ‘não fumar’)… até que, perto do ano 2000, surgiu uma forte e atuante classe: os ‘não-fumantes’.

Diferente dos chatos ‘ex-fumantes’, aos quais podíamos retrucar lembrando suas antigas baforradas, os ‘não-fumantes’ já nasceram inocentes e prenhes de razão, militância, e intolerância, como se quisessem ir à desforra por anos de nicotina alheia e como se tivessem a certeza de que uma respirada qualquer de um Marlboro na mesa ao lado os levariam a terminar a noite no consultório de um oncologista.

Armados com fuzilantes olhares de reprovação e ágeis mãos abanadoras, aos poucos foram conquistando corações e mentes (e pulmões!), corretamente inibindo o fumante onde fumar era inadequado e, prova de sucesso, tornando cada vez mais constrangedor fumar até onde é permitido. Já faz tempo que, antes de acender um cigarro em um ponto de ônibus, verifico a direção e força do vento, para me posicionar estrategicamente em algum lugar onde minha fumaça não alcançará ninguém.

Hoje, principalmente depois da experiência na europa, onde vi que não é assim tão desagradável ir à calçada fumar seu careta, estou conformado com a nova lei – ainda tenho algumas dúvidas, como se poderei fumar no estacionamento do prédio se eu estiver dentro do carro – e pretendo acender meu último cigarro dentro de boteco amanhã às 23:55 e apagá-lo respeitosamente às 00:00, mas já com saudade dos velhos tempos e declarando meu apê e meu carro como zonas livres de lei antifumo ;)