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Arquivo da Categoria ‘Literatura’

A força da palavra

7, setembro, 2010 Sem comentários

Com anos de atraso comecei a ler “Ensaio sobre a cegueira” do Saramago, na primeira noite, sonado, li apenas o primeiro capítulo, que termina ‘Nessa noite o cego sonhou que estava cego‘. Dormi e sonhei que estava cego.

Categories: Literatura

Macondo de Piratininga

3, fevereiro, 2010 Sem comentários

“Llovió cuatro años, once meses y dos días. Hubo épocas de llovizna en que todo el mundo se puso sus ropas de pontifical y se compuso una cara de convaleciente para celebrar la escampada, pero pronto se acostumbraron a interpretar las pausas como anuncios de recrudecimiento. Se desempedraba el cielo en unas tempestades de estropicio, y el norte mandaba unos huracanes que desportillaron techos y derribaron paredes, y desenterraron de raíz las últimas cepas de las plantaciones”

Cien años de soledad – Gabriel Garcia Márquez

Categories: Cotidiano, Literatura

Lula, o filho do Brasil

6, janeiro, 2010 8 comentários

Em 10 de maio de 1958, Carolina Maria de Jesus escrevia o seguinte em “Quarto de Despejo. Diário de uma favelada”: “… O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças.

Pode-se falar o que for sobre o Lula e seu governo, a média classe média do Sul e Sudeste pode esbraVejar do alto de sua indignação preconceituosa pouco esclarecida e muito manipulada; os analistas de plantão, bastante ouvidos apenas pela classe acima citada, podem dissecar todas as iniciativas e movimentos deste governo que certamente acharão erros, problemas, más condutas, na mesma medida que não enxergam, ou não divulgam, seus inversos.

Mas todos ão de convir que a trajetória de um nordestino que conheceu a pobreza e a fome e que viajou 13 dias em um pau-de-arara para, junto com sua família alicerçada pela mãe Dona Lindu, com seu bordão “Teima, é só teimar que dá certo”, salvar a vida em São Paulo, fez toda a diferença para os brasileiros mais pobres.

E é isto que o filme conta, acompanhando esta trajetória do nascimento em Garanhuns até a prisão do Lula e o enterro da D. Lindu em 1980. Sofre como qualquer filme que compacta 35 anos de história em duas horas, com alguns saltos no tempo que podiam ser melhor amarrados na minha opinião, mas ainda assim foram boas as escolhas dos fatos destacados, do elenco, e o cuidado na filmagem.

Irrita um pouco o merchand em excesso da Brahma, com guaranás e cervejas com os rótulos sempre visíveis, mas patrocínio é patrocínio… aliás, nos créditos iniciais, após o aviso ‘este filme não contou com nenhum incentivo fiscal, etc, etc’, a lista de patrocinadores parece uma carteira da Bovespa… Taí, podiam fazer um índice composto com as patrocinadoras do filme ;)
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Não é brilhante mas é um bom filme, e vale pra gente conhecer um pouco melhor a trajetória d’o cara :)

Sobre “Quarto de Despejo”: Carolina era uma favelada negra semi-alfabetizada que morava na favela do Canindé na década de 1950 com três filhos pequenos, sustentando-os na medida do possível como catadora de papel e, entre uma batalha e outra, escrevia um diário onde contou o cotidiano seu e da favela. Descoberta por um jornalista, conseguiu publicar um livro com fragmentos do diário abrangendo de 1955 a 1o de Janeiro de 1960. O livro foi um fenômeno de vendas e ela consegui realizar o sonho de ter uma casa de alvenaria. Publicou mais alguns livros, ficou conhecida mundialmente – foi tema de documentário na Alemanha – e finalmente morreu pobre e esquecida em seu país em 1977.
Do livro, em 28 de Maio de 1959: “… A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.”

Aconselho a leitura para todos que querem conhecer um pouco da miséria e do que é passar fome sem ser nas dietas pré-verão ou nos jejuns pré-exame de sangue.

Aqui na Livraria Cultura, classificado com ‘infanto juvenil’!

Haikais

11, dezembro, 2009 1 comentário

Vasculhando meu baú virtual atrás do antigo blog do Andrey, acabei encontrando o meu antigo e, lá, os haikais que fiz na época, 2001/02… pela ordi:

– estes foram os primeiros :

Caí do trem da história
Fiquei sem saber
onde ele ia

quando vi o som do dia
só ouvi
o que escrevia

o rodo se esbaldava
na água que caía
em gota

outono hoje
a sombra costumeira
virou colchão

– putz, aqui era eu torcendo para umas plantas que eu havia comprado florirem… morreram pouco depois :(

vai brotar a flor
a ansiedade
à flor da pele

estes foram esperando a Lu, que havia ido comprar “uma blusinha rapidinho“… onde anotei “Este é meu primeiro com métrica perfeita (5-7-5)” :)

ai ai ai ai ai
ai ai ai ai ai ai ai
ai ai ai ai ai

se flor comprasse as pétalas
levaria anos
para florir

– aqui meu eu melancólico se manifestando

Saudades da melancolia
de quando da dor não sabia
que sabia a filosofia.

– a série abaixo certamente foi numa época nublada como os últimos dias aqui em Sampa

Ando esquecido
Há um azul celeste
Atrás do branco?

Azul cadê?
Algodão entope
Minha vista

Mais céu nublado
Por mais tempo fará
Meu humor inglês

Retornou com classe
Após a densa neblina
Bem-vindo à terra

– minhas encrencas com comunicação, já de antigamente…

Telefone email
Celular torpedo chat
Devia ficar quieto

– e esse eu mesmo não entendo

Eleger o possível,
torna possível
o impossível.

Depois nunca mais fiz haikais, acho que a vida começou a ficar mais complicada naqueles tempos e fui abandonando, como abandonei o blog. Quem sabe volte a inspiração.

Categories: Literatura, Sobre a vida

Discutindo a relação

8, dezembro, 2009 1 comentário

O Laerte, o Angeli, e o Glauco, para mim nesta ordem, são muitas vezes felizes ao transportar as misérias do cotidiano para os quadrinhos.

A de hoje do Angeli é perfeita, mas só quem já discutiu relação é que entende:

blog_005a
Angeli – Folha de São Paulo – 08/12/2009

Vou sentir falta deles…

E nem estamos em Macondo…

11, novembro, 2009 Sem comentários

Ya esto me lo sé de memoria“, gritaba Úrsula. “Es como si el tiempo diera vueltas en redondo y hubiéramos vuelto al principio.

Cien años de soledad – Gabriel Garcia Márquez

Categories: Literatura, Sobre a vida

Alka-Seltzer

26, setembro, 2009 Sem comentários

Lembrou da história, que já viu creditada desde a Malba Tahan até a Abraham Lincoln, enquanto digeria mais uma separação indigesta, tentando entender o porquê de mais um fim. A história era a do imperador chinês que convocou todos os sábios a seu alcance para obter uma frase que o auxiliasse em todas as situações e, ao final, obteve-a de um servo. A frase era “E isso também passará.” Adequada para enfrentar os desastres e para não se acomodar com o sucesso.

Lembrou da história porque divagava sobre “movimento“, ouvindo-o na britadeira da obra ao lado, observando-o na fumaça de seu cigarro, sentindo-o na efervecência de um alka-seltzer.

Pensou nas evoluções da Terra no tempo e no espaço, no bigbang, no dia e na noite, nas fases da lua, nas marés, no vento. Considerou os movimentos da humanidade e suas sociedades, as eras, os ciclos, as guerras, a evolução em seus milhões de anos. E na viagem do espermatozóide vitorioso, o bater do coração, as contrações do parto, o circular do sangue, os pulsos das conexões do cérebro.

Lembrou da sua infância, quando se divertia com as fórmulas do laboratório de química, que quando reagiam moviam-se para outra cor; dos jogos com os amigos na imensidão da rua calma e dos terrenos baldios da época, que ocupavam, em ação, como se fossem teatros de guerra; das expansões dos horizontes, o primeiro proporcionado pela primeira bicicleta, o segundo pelo alvará obtido para pegar o ônibus para a Sé e fazer a primeira exploração solitária a uma livraria, o terceiro quando conseguiu continuar os estudos longe de casa, e os outros que dali vieram, variando em meios e graças, mas sempre em movimento.

Viu o movimento do sexo, da descoberta manual e exaustivamente explorada do seu, ao do delas, no início sofrendo para acertar a velocidade enquanto desejava ter mais braços, mãos, línguas e pênis para tocar toda a superfície e penetrar cada orifício, até que aprendeu que cada par tem seu ritmo e que os membros que tinha, mais tempo e movimento, já eram o suficiente. Compreendeu então que sexo é movimento.

E constatando que havia movimento em tudo, e que ele é imprescindível em tudo, concluiu que cada mudança sua em sua vida também era, cada um, um movimento, e que o seu conjunto de movimentos havia sido necessário para sua vida. E percebeu que cada relação pessoal da sua história o havia ligado a indivíduos em seus próprios movimentos necessários, amalgamando-os aos seus, e que às vezes nesta mistura havia surgido amor. E em outras, dor. Mas tudo movimento.

Portanto ele tinha mais é que ser grato por poder, algumas vezes na vida, compartilhar os seus com os das pessoas que pôde e pode amar; e afagar a dor, pois isso também passará.

E seu alka-seltzer parou de borbulhar.

Categories: Literatura, Sobre a vida

Boas revistas

24, setembro, 2009 Sem comentários

Outro serviço de utilidade pública, três dicas para quem, como eu, gosta de ler boas, longas e profundas reportagens e entrevistas, ainda mais quando os temas são relevantes e abordados com leveza e, na maioria das vezes, otimismo – principalmente a “Brasileiros” e a “Revista do Brasil“, que acreditam no Brasil sem serem ufanistas. E a “Piauí“, sempre com temas inusitados e bom humor.

Nota: se você lê a Veja e gosta, se identifica, não vale nem a pena ler estas, mas se você lê e fica meio ressabiado, incomodado, acha que aquela voz que escreve todas as matérias está um tanto paranóica e não encontra muito eco na realidade, experimente estas… são mensais, portanto preenchem 3 semanas, e na que faltar você descansa, afinal, quem lê tanta notícia?

Brasileiros

Esta edição está demais, se tivesse obituário até ele eu leria. Entre outras boas, duas entrevistas deliciosas, uma com o Tom Zé, pelado na capa, que não culpa ninguém pelo seu ostracismo: “Quando você não é tocado no Brasil, tem uma coisa de dizer que você é vítima da cultura de massas, como eu não tenho vocação para vítima, como eu não era tocado, eu fui trabalhar em casa. Eu não era chamado para trabalhar na rua, não era chamado para entrevista, não era chamado para porra nenhuma. Eu ia pra casa trabalhar. Talvez, o que me fez trabalhar durante meu tempo de ostracismo foi que a queixa não era meu lema. Não gosto de fazer queixa e culpo a mim mesmo.”.

brasileiros
E a com o Lima Duarte, que tem uma passagem que me tocou: “Em 1948, eu morava em uma pensão em São Paulo, quando meu pai apareceu – … Eu tinha 18 anos quando meu pai bateu na porta do quarto com um embrulho na mão e disse : “Veste este terno que eu lhe comprei, que vamos para Santos conhecer o mar”. Nem eu nem meu pai conhecíamos o mar. Descemos a Serra e, quando chegamos na praia, vi o mar pelo olhar deslumbrado do meu pai. Então, fui alugar um calção para entrar na água, e meu pai não quis tirar o terno – ficou sentado na calçada só observando a imensidão do mar. Mas ele me pediu que fosse pegar um pouco da água salgada do mar, num copo, e eu fui. Quando voltei, ele cheirou a água do copo, colocou um pouco na língua e fez uma careta de satisfação. Disse que realmente a água era salgada, e começamos a rir.”
E outras boas reportagens, o que faz a revista merecer o complemento que usa, “A revista mensal de reportagens”. Na última página, a seção “você acredita no Brasil” faz esta pergunta para personalidades várias, nesta a da Dra. Zilda Arns é ótima.

É publicada no meio do mês e custa R$ 9,90.
piaui

Piauí

O desenho aí do lado é do R. Crumb, que conheci através da extinta Animal faz muitos anos, que apresenta sua versão d’O Gênesis em quadrinhos nesta edição. A seção ‘esquina‘, entre outros casos, conta a história da Monga, que quem já foi ao Playcenter já conhece.
Tem também, no “diário“, as aventuras de um pizzaiolo italiano na Coréia do Norte. E uma matéria ótima sobre o trabalho de intérpretes. Ah, e uma reportagem “diferenciada” sobre o aniversário de 15 anos da filha da Silmara Sukarno (!?), uma hiper-rica, que me fez reabilitar meus planos para uma ONG em prol da distribuição de renda (que nunca foi pra frente por falta de patrocínio… não sei por quê ;) ).

E você sabia que o Rio tem a maior frota de ônibus do Brasil? Eu não, descobri aqui.

Todo início do mês a R$ 9,90.

Revista do Brasil

Esta eu conheci mais recentemente, devorei a pilha de antigas do meu compadre Sérgio e comprei a última em banca. O mesmo modelo de reportagens e entrevistas gostosas, nesta a do Jaguar está impagável… uns trechos:
“Já broxei muito. Você não sabe como é bom broxar. O cara que não broxa é como um vibrador: liga, aperta o botão, e pronto. É uma delícia ficar insistindo. E tem outra coisa: a mulher adora quando consegue fazer o cara sair do prejuízo, se sente orgulhosa, uma heroína. O cara que vive de pau duro não pode dar este prazer à mulher.”

dobrasil
“Vai ao médico, se cuida?
Eu não me cuido porra nenhuma. É um milagre. Não tenho horário para comer, não faço ginástica, não nado. No máximo um quarteirão, de bar em bar…”
… E encerra assim:
“Você chegou a dizer que quando morresse queria que suas cinzas fossem espalhadas por todos os bares em que bebeu. Vai ter cinza suficiente?
Para você ser cremado, é preciso registrar em cartório, né? Fui lá e o cara me perguntou “Como você quer que suas cinzas sejam espalhadas?” E eu: “Quero que as minhas cinzas sejam espalhadas por todos os bares em que bebi no Rio”. O cara fez a mesma pergunta: “Será que vai dar?” Eu disse: “Se não der, é só pegar um pangaré velho, queimar, e juntar tudo”. Mas como eu não confio muito nestes caras de hoje, eu mesmo vou fazer um ensaio geral da minha cerimônia de cinzas.
Já começou a ensaiar?
Ainda é cedo, mas já fiz a lista: serão dez bares por dia durante alguns meses. Minha mulher acha meio mórbido, mas estou decidido. A ideia é ótima. Meus amigos também acham. Estão todos animadíssimos com o meu funeral.”

Ainda não sei em que parte do mês é publicada. Custa apenas R$ 5,00.
Categories: Cotidiano, Literatura

Angeli – O TUDO DO NADA

24, junho, 2009 Sem comentários

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Angeli – Folha de São Paulo 24/06/2009

Nota: o post anterior foi a manifestação deste movimento na blogosfera :)

Categories: Literatura

24, junho, 2009 2 comentários












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