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Arquivo da Categoria ‘Sobre a vida’

Haikais

11, dezembro, 2009 1 comentário

Vasculhando meu baú virtual atrás do antigo blog do Andrey, acabei encontrando o meu antigo e, lá, os haikais que fiz na época, 2001/02… pela ordi:

– estes foram os primeiros :

Caí do trem da história
Fiquei sem saber
onde ele ia

quando vi o som do dia
só ouvi
o que escrevia

o rodo se esbaldava
na água que caía
em gota

outono hoje
a sombra costumeira
virou colchão

– putz, aqui era eu torcendo para umas plantas que eu havia comprado florirem… morreram pouco depois :(

vai brotar a flor
a ansiedade
à flor da pele

estes foram esperando a Lu, que havia ido comprar “uma blusinha rapidinho“… onde anotei “Este é meu primeiro com métrica perfeita (5-7-5)” :)

ai ai ai ai ai
ai ai ai ai ai ai ai
ai ai ai ai ai

se flor comprasse as pétalas
levaria anos
para florir

– aqui meu eu melancólico se manifestando

Saudades da melancolia
de quando da dor não sabia
que sabia a filosofia.

– a série abaixo certamente foi numa época nublada como os últimos dias aqui em Sampa

Ando esquecido
Há um azul celeste
Atrás do branco?

Azul cadê?
Algodão entope
Minha vista

Mais céu nublado
Por mais tempo fará
Meu humor inglês

Retornou com classe
Após a densa neblina
Bem-vindo à terra

– minhas encrencas com comunicação, já de antigamente…

Telefone email
Celular torpedo chat
Devia ficar quieto

– e esse eu mesmo não entendo

Eleger o possível,
torna possível
o impossível.

Depois nunca mais fiz haikais, acho que a vida começou a ficar mais complicada naqueles tempos e fui abandonando, como abandonei o blog. Quem sabe volte a inspiração.

Categories: Literatura, Sobre a vida

Capitalismo Esotérico

10, dezembro, 2009 3 comentários

Não, aí já foi demais… depois do Capitalismo Selvagem, agora temos o Capitalismo Esotérico, nas palavras do podcast de ontem no Filosofia de Bem Viver, da Márcia De Luca, especialista (!) em yoga (!!) e ayurveda (!!!) da Rádio Eldorado.

O negócio é tão espantoso que me aluguei em transcrever – leia de preferência ouvindo uma música new age bem baixinho:

“Hábito de guardar dinheiro não é saudável; ouça as dicas da Márcia de Luca
A lei da prosperidade nos ensina que as coisas devem fluir natural e espontâneamente
(sic).

Quantas pessoas têm o hábito de guardar dinheiro? Guardar dinheiro com medo de que um dia falte em sua vida. O simples ato de guardar e guardar vai promovendo uma estagnação da energia. Ilusoriamente estas pessoas podem achar que estão enriquecendo, aparentemente até estão. Mas estão também truncando a lei da prosperidade que nos ensina que tudo deve fluir natural e espontaneamente, para que o movimento continue se perpetuando. Para ganhar é preciso gastar, mas gastar com critério e inteligência, comprando o que é necessário, investindo de maneira coerente, intensificando, desta maneira, a poderosa lei universal que diz que é dando que se recebe. Essa é mais uma dica da filosofia de bem viver. Juntos podemos fazer a diferença para um mundo melhor.”

Ou ouça o original aqui.

Ô Dona Márcia, guarda dinheiro quem tem dinheiro para guardar, pois a maioria dos mortais aqui tem medo de que um dia falte em nossa vida. E imagine o quão esotérico é para seu ouvinte que rala pra fazer o salário chegar ao fim do mês ficar satisfeito por não estar guardando nada, pois assim não está ‘promovendo uma estagnação da energia’?

Dona Márcia, é óbvio que o dinheito circular é necessário na economia, pois… mas chamar isso de ‘lei da prosperidade’ pois a grana deve ‘fluir natural e espontaneamente’… uau, quanto dinheiro pinga espontaneamente na sua conta??? Para ganharmos é preciso que alguém gaste, normalmente somos nós mesmos – aqueles mortais de que lhe falei, mas às vezes temos que guardar tudo o que conseguimos para conseguir realizar algum sonho – e olha, aí vamos gastar! – ou para nos prepararmos para uma adversidade ou para a quando o dinheiro parar de pingar espontaneamente – uau2, gostei dessa idéia de espontaneidade na economia. E, olha, na boa: ‘é dando que se recebe’ cabe melhor discutindo política do que economia, quanto mais esoterismo. Mas não se preocupe, eu habitualmente compro incensos e faço a grana circular para seus lados ;)

By the way, vou sugerir para o pessoal de Brasília te chamar para participar das reuniões do COPOM, se os incensos, o new age, e o pessoal reunido em posição de lótus não servir para baixar os juros, ao menos as atas vão ser bem mais interessantes :)

Discutindo a relação

8, dezembro, 2009 1 comentário

O Laerte, o Angeli, e o Glauco, para mim nesta ordem, são muitas vezes felizes ao transportar as misérias do cotidiano para os quadrinhos.

A de hoje do Angeli é perfeita, mas só quem já discutiu relação é que entende:

blog_005a
Angeli – Folha de São Paulo – 08/12/2009

Vou sentir falta deles…

Interfaces

3, dezembro, 2009 3 comentários

Em meados da década de 80 do século passado (uau, como esta frase envelhece a história!) os bancos iniciavam a implantanção do auto-atendimento, e especificamente no Banco do Brasil o que havia de ‘auto’ era um terminal muito simples, parecido com uma máquina de escrever elétrica IBM com um display de cristal líquido e uma pequena impressora acoplada, que só servia para o cliente, após informar os dados – acho que nem havia cartão magnético – obter um extrato ou saldo impresso.
Como era novidade e era desejado substituir a cultura da boca do caixa para o auto-atendimento, os caixas eram instruídos a, quando o cliente solicitasse algo disponível no terminal, solicitar a ele que fosse até lá e se virasse sozinho.

Nesta época minha irmã, que era caixa no Banco do Brasil da Penha que ficava numa rua repleta de lojas bem no centro comercial e estava acostumada a atender os donos das lojas que iam depositar a féria do dia e controlar a conta, um dia atendeu uma senhora que queria um extrato da conta da loja do marido que estava doente e não podia ir ao banco, coisa que ela não costumava fazer. Como era apenas um extrato, minha irmã a orientou a ir ao terminal e voltou ao trabalho. Uns bons minutos depois a mulher volta, com lágrimas nos olhos, envergonhada, pedir ajuda pois não havia conseguido se comunicar com a maldita máquina e, poxa, precisava do extrato.

A Vivi me contou esta história ainda em meados da década de 80 (uau, como esta frase me envelhece!) e aí quem ficou com lágrimas nos olhos fui eu, imaginando a impotência da senhora, provavelmente uma dona de casa eficaz operadora de diversos aparelhos da vida doméstica, incapaz ante a um ininteligível aparelho da era da informática.

De alguma maneira esta história me ficou marcada – me emociona até hoje – e me orientou na vida profissional, quando em algum momento comecei a trabalhar na área de produtos e me embrenhei em definir interfaces de programas com o usuário, o fazia sempre lembrando que um ser humando desacostumado com operar computadores ocasionalmente precisaria utilizá-lo.

Eu não costumo ter problemas para conversar com máquinas – meu último foi com uma máquina no Metrô Sé, que me roubou as últimas moedas e a lata de Coca-Cola Zero. Os aparelhos e programas são em número limitado, normalmente vem com manuais, e os conceitos que norteiam as definições de interfaces com o usuário são públicos e compartilhados.

Meu dicionário define

interface

s. f.

1. Inform. Dispositivo (material e lógico) graças ao qual se efetuam as trocas de informações entre dois sistemas.

2. Didát. Limite comum a dois sistemas ou duas unidades que permite troca de informações.

3. Por ext. Interlocutor privilegiado entre dois serviços, duas empresas, etc.

que amplio resumidamente com “disponibilização organizada, e desejavelmente amigável, de sinais e métodos que informam e orientam o interlocutor a como perguntar e obter sua resposta.”

E isso tudo funciona muito bem, obrigado, com as diversas máquinas e softwares que tenho que acessar no dia-a-dia (exceto a máquina que me roubou a Coca-Cola!), pois há todo o conjunto de costumes e regras que orientaram quem definiu as interfaces e me orientam quando preciso utilizá-las.

Mas nestes últimos reclusos dias tenho pensado mesmo é nas interfaces entre as pessoas, considerando que são basicamente comunicações, que ganharam muito em possibilidades e complexidade nos últimos tempos.

Quando nos comunicamos queremos dizer algo aos outros e obter respostas – lembre-se que até um aplauso ou uma vaia são respostas – e há uma organização, uma etiqueta, que rege e permite esta interação, esta interface entre pessoas.

Mas pessoas têm uma variedade que beira o infinito, não vem com manual, nem sempre obedecem as mesmas regras de comportamento que as outras, e nem sempre dão a resposta que esperamos, quando dão. O que torna acessar esta interface algo um tanto mais complicado do que quando com as máquinas.

Agora então, com todas as facilidades modernas, que, mais do que em qualquer outro aspecto da vida, sofisticaram as comunicações entre pessoas com a telefonia e internet e seus inúmeros meios e recursos possíveis de interação, criando ainda mais variáveis a serem consideradas na hora de entabular, ou tentar, uma comunicação com outras pessoas, às vezes me vejo perdido.

É que são hoje tantas as possibilidades e combinações para enviar e receber informações que eventualmente, como a senhora que chorou no terminal, não consigo me entender com elas e desisto.

Categories: Sobre a vida, Tecnologia

E nem estamos em Macondo…

11, novembro, 2009 Sem comentários

Ya esto me lo sé de memoria“, gritaba Úrsula. “Es como si el tiempo diera vueltas en redondo y hubiéramos vuelto al principio.

Cien años de soledad – Gabriel Garcia Márquez

Categories: Literatura, Sobre a vida

Contrassenso

30, outubro, 2009 Sem comentários

Enquanto tentava remover os últimos vestígios à força, numa autolobotomia urgente e dolorosa, notei que várias coisas na fila da aniquilação só ganharam alguma importância justamente por que precisavam ser destruídas, como se não existissem completamente enquanto o porquê de existirem existia.

Fotos, lembranças, objetos, odores, manchas, letras, papéis, arquivos, acontecimentos, desacontecimentos, prazeres, aborrecimentos. Estavam todos lá este tempo todo sem serem notados, pois logo depois que passaram a existir ocuparam seus lugares de inquilinos no tempo e/ou no espaço disfarçados de nada. E agora, revelados, se agarram aos seus postos como carrapatos, que penam em sair e cobram seu preço em sangue e dor quando finalmente conseguimos arrancá-los.

Os significados de algumas coisas são efêmeros enquanto fazem sentido e perenes quando deixam de fazer.

Categories: Sobre a vida

Seu Aristides

26, outubro, 2009 2 comentários

Em um sábado ensolarado, ao acompanhar meu pai ao mercadinho do Seu Romualdo, enquanto eu tomava minha cerveja e ele a sua infalível Ypioca, batuquei o balcão e cantarolei de passagem “Se acaso você chegasse/No meu chatô e encontrasse/Aquela mulher que você gostou”, e, surpreso, ouvi o resto completo “Será que tinha a coragem/De trocar nossa amizade/Por ela que já lhe abandonou?/Eu falo porque essa dona já mora no meu barraco/À beira de um regato/E de um bosque em flor/De dia me lava a roupa/De noite me beija a boca/E assim nós vamos vivendo de amor” da boca dele, num ritmo até razoável pr’um espanhol cantando samba.

Justo meu pai, que eu nunca havia visto ouvindo uma música sequer de moto próprio, completou a letra do Lupicínio que eu nunca havia decorado. Foi aí, quando já não morava mais com ele, que constatei empiricamente que, após a fase mais aguda da adolescência, nada melhor que um pouco de distância para nos reaproximar de nossos pais.

Descoberto o samba, daí em diante aproveitei cada momento que pude para entrevistá-lo e resgatar o possível de uma história que, por conta de temperamentos e demandas de sobrevivências, fomos relapsos em registrar. Então descobri que meu pai, para além do Pai para mim e para meus irmãos, do Aristides de minha mãe, e do Tidão de minha avó, era também o Seu Ari no seu ramo de trabalho, e que lá, como em casa, era muito respeitado. Que ensaiou ser jogador de futebol e locutor de rádio. Que conheceu minha mãe em um ponto de ônibus na Penha… bem, foi pouco tempo e rala memória para guardar tudo o que eu devia.

Antes disso as lembranças vividas eram as únicas memórias. Vê-lo chegar em casa, à noite nos dias de semana e à tarde aos sábados, com o jornal embaixo do braço, o maço de Shelton, às vezes um pacote com alguma comida ou uma garrafa qualquer, dos quais se desfazia antes de jantar e ir para a TV ou ler um dos seus inúmeros livrinhos de faroeste. Da paçoca com o guaraná caçulinha que me pagava quando eu conseguia acompanhá-lo ao bar com os amigos. Dos almoços de domingo nos quais ele comandava a cozinha e nos quais só comia após todos já terem almoçado. E tantos outros pequenos detalhes e hábitos do cotidiano que percebi com o tempo serem as memórias que melhor guardamos e que dão mais saudades das pessoas que perdemos.

Gosto de pensar que herdei dele coisas boas que tenho hoje, a responsabilidade por vezes exarcebada, a honestidade e correção moral da qual tanto me orgulho, a preocupação com o próximo que também me faz almoçar depois de todo mundo quando eu preparo um almoço… bem, o tempo e a saudade agem como filtros e nem todo o espólio é admirável, não são todas as minhas características herdadas eu posso me gabar, mas gosto mais de perceber que eu e meus irmãos, meus sobrinhos, e agora minha sobrinha-neta, carregamos um pouco dele e de minha mãe para o futuro.

Hoje seu Aristides completaria 76 anos e faz muita falta, mas o alicerce que me serve de norte quando minha própria bússola falha ele continua me proporcionando. E como acho que nunca lhe agradeci como devia, vai aqui neste post, para uma binária posteridade:

Parabéns, Pai, obrigado!

Nota: a gravação que subi é com o Nelson Gonçalves e Elza Soares… queria uma com o Noite Ilustrada, mas não achei.

Categories: Sobre a vida

Prisioneiros

25, outubro, 2009 Sem comentários

Existem batalhas nas quais não devemos fazer prisioneiros, pois cada Convenção de Genebra pessoal exige tratá-los com dignidade e eles têm que ser mantidos vivos, alimentados, saudáveis.

E nós o fazemos.

Sem este cuidado, nesta espécie de guerra que não acaba nunca e que é repleta de batalhas onde sempre restam feridos, haverá um gradual e insustentável aumento de incômodos prisioneiros. Sem opções de solitárias, se agrupam em facções, promovem rebeliões, se tornam violentos, exigem regalias, dão trabalho constante e acabamos por torcer para que fujam.

Mas eles não fogem.

Pois esta guerra também não tem inimigos e não há para onde fugir ou libertá-los. Sem contraparte, não prevê armistícios ou tréguas, e não promove troca de prisioneiros.

Eles continuam lá, em número crescente, consumindo nossos recursos até morrerem.

Mas eles vivem mais do que o razoável.

Portanto, ao investigar a terra arrasada ao fim de cada batalha, não faça prisioneiros. Erga um monumento, se quiser; relate em um livro, se achar louvável; faça um filme, se achar que rende. Mas seja impiedoso e misericordioso e não faça prisioneiros.

Nota: post incidental fruto de ter assistido 3 filmes de guerra em sequência. E de uma rebelião em meu campo de prisioneiros.

Categories: Sobre a vida

Viver

19, outubro, 2009 Sem comentários

Para começar a semana com bom astral:

Viver
Teca Calazans
Composição: Ricardo Vilas

Tem que ligar suas antenas
Captar melhor freqüências
Dimensões e vibrações
Que no ar se sente
Tem, tem que usar cinco sentidos
Pra chegar a um relativo
Significado justo simples coerente
O mundo é bola rola rola
A gente sai correndo atrás
Passageiro desse trem
O tempo brinca de seguir
Leio aqui no seu futuro
Uma estrela intensa clareando
Viver, viver
Eu pessoalmente me interesso
Pelo destino desse trem
O tempo mente muito mente
Fazendo crer que ele seguiu
Leio aqui no seu passado
Uma estrela intensa clareando
Viver, viver, viver
O amor é que alimenta a força de viver
O amor é que alimenta
A força de viver, viver
O amor é que alimenta
A força de viver
O amor é que alimenta

Nota: achar esta música foi um achado ;) Estava parcialmente na minha memória faz uns 20 anos e consegui encontrá-la num site meio obscuro… como é de um LP (long play, vinil…) de 1982, não relançado em CD, subi o mp3 inteiro (o nome da música é link).

Categories: Música, Sobre a vida

As suíças do Isaac Asimov

16, outubro, 2009 Sem comentários

Navegando na insônia, achei uma inspiração retroativa para minhas suíças!

Isaac_Asimov Isaac Asimov, que podia até ser garoto propaganda! asimov_trs_1_large

Este post foi patrocinado por Dormibem. Dormibem, não passe a madrugada fazendo posts ridículos. Tome Dormibem e durma… ;)

PS pros nerds com mais de 30: a propaganda é de 82, de um TRS-80.