Resolvi pedir uma dica ao Google para preparar uma alheira que há tempos me aguardava e encontrei uma receita deliciosa.
Deliciosa antes mesmo de ser preparada (os grifos são meus):
Um amigo transmontano ensinou-me a melhor maneira de fazer as alheiras. Nada como as que comemos por aí em qualquer restaurante. A boa alheira requer tempo a ser cozinhada. Fura-se primeiro com uma agulha. Muitos furos, por onde há-de sair a gordura.Planta-se dentro de uma frigideira, sem qualquer gordura (a gordura que ela vai libertar é mais que suficiente) e a uma temperatura baixa. Se for numa placa eléctrica, numa escala de 1 a 5, ponha-se no dois. Este processo de fritura, dura pelo menos uma hora. Por isso, calminha, aproveite-se o tempo a beber uns copos e um queijinho de entrada.
Quando já houver uma certa gordura resultante da fritura, recolha-se para uma molheira – a alheira deve frigir sempre com o mínimo de gordura. Nem é preciso dizer que, a meio tempo, se volta. Neste processo, por vezes a alheira rebenta. Não é bonito, mas come-se na mesma.
Ao mesmo tempo cozem-se umas batatas com pele, e em panela separada uma genuina couve portuguesa e algum nabo.
No final, pela-se a batata que vai acompanhar com, com as restantes verduras, a alheira. A gordura que se foi retirando da sertã é a que serve para temperar a batata. Acompanha com um vinho do Douro encorpado. Um prato divinal, se a alheira for de boa qualidade (as melhores que eu compro são as da charcutaria Manuel Tavares, fundada em 1860, sita entre a Praça da Figueira e o Rossio (ir à charcutaria Manuel Tavares é um acto de cultura e não só gastronómica..). A talhe de foice, diga-se que também lá compro os melhores figos secos (as passas). O figo preto de Torres – excelente – por 2 euros e meio o quilo. E ainda há quem pense que o barato se encontra nas grandes superfícies…
A minha não deu certo, a alheira meio que explodiu na frigideira, mas deu para curtir uma receita que pede para, depois d’eu plantar a alheira dentro da frigideira, calminha e sugere beber uns copos durante o preparo; que me fez descobrir
sertã
s. f.
Frigideira larga e de pouco fundo, de ferro ou de barro; e
vir a talhe de foiceexpressão
vir a propósito.
; relembrar a Praça da Figueira e o Rossio; e ficar intrigado com qual barato pensam que se encontra ‘nas grandes superfícies…’
Finalmente ontem, no último dia, cheguei ao lugar onde o Pessoa nasceu , ao Café A Brazileira, onde um gringo tomava uma cerveja com ele e não arredou pé do lugar , e ao túmulo no Mosteiro dos Jerónimos, onde tive que sair rápido pois foi invadido por uma horda de turistas que sequer falam português (depois voltei) .
O túmulo fica em num corredor isolado do Mosteiro, com o mini-obelisco e 3 trechos de poemas a lhe prestar homenagem, e uma placa explicativa para os turistas (em português e inglês). Um tanto fora de contexto, ainda mais considerando que não vemos referências religiosas em sua obra – não conheço 100%, mas não lembro de uma sequer.
Não sei onde o túmulo ficava originalmente, mas acho que era em algum cemitério comum no centro de Lisboa, e lá devia ter ficado, na minha opinião (ah, o Panteão era brincadeira ).
E aqui chegou ao fim a visita a Lisboa, mesmo por que a bateria da minha câmara acabou logo em seguida. Nestes dias todos percorri a maior parte do roteiro de Lisboa que o Pessoa fez, o que me fez me enveredar por várias ladeiras e becos nos caminhos entre os sítios, sempre com a agradável companhia da lembrança de que estava andando por lugares que ele, o autor de diversas obras que admiro e do livro que eu estava seguindo, um dia caminhou.
Estou editando as fotos aos poucos, pois são muitas (e ainda faltou ), um dia as publico.
Também me acompanharam na aventura um exemplar do livro que ficou todo estropiado, uma mochila made-in-Portugal (a dona da loja falou isso toda orgulhosa!), e um boné que comprei para substituir o que o Tejo levou, mas que não está na foto pois o perdi justamente no Mosteiro
Pensando bem, é uma pena não ser religioso ao visitar Lisboa, aproveitaria muito mais
O Mosteiro também é outro lugar impressionante de beleza e antiguidade (estou sem a cola aqui, então fica sem história), cujo atual maior valor é o túmulo do Fernando Pessoa, que ficará em outra série de fotos.
Ou melhor, “Ruínas do Carmo”, antiga “Igreja do Convento de Nossa Senhora do Vencimento do Monte do, ufa, Carmo” (o ‘ufa’ é meu), fundado em 1389.
O edifício foi bastante destruído no terramoto de 1775, e D. Maria I tentou restaurar, mas o dinheiro não deu.
No século XIX instalou-se lá um museu com peças de antigos edifícios arruinados e outras de valor arqueológico.
Em Lisboa, na Estação Santa Apolônia, atrasou 1 segundo: saiu às 22:30:01.
Era um trem antigo, lento e apertado, e me faria bem saber contorcionismo para conseguir uma posição para dormir, mas valeu!
Depois um percurso de Madri a Sevilha, e outro de lá para Cádiz. Tudo certo, cá estou. A história completa abaixo.
Bem, resolvi fechar a conta aqui em Portugal antes que eu troque Elis Regina por Amália Rodrigues, Chico Buarque por Zeca Afonso, gerúndio por infinitivo, café puro por café cheio, feijoada por cozido à portuguesa, Original por Sagres, Marlboro de R$ 3,75 por Marlboro de 3,50 euros, bem, e outras tantas diferenças que conheci por aqui.
Fico devendo os álbuns de hoje, o Convento do Carmo e o Mosteiro dos Jerónimos (Andrey, mereço ou não um diploma de turista?), e meu diagnóstico de Lisboa, pois parto agora à noite para Madri de trem, viagem que dura a noite toda, e depois tenho que exercitar meu Domingues para achar a estação de onde parte o para Cádiz, a terra de meus avós paternos.
O projeto lá é investigar as origens de minha calvice e de, segundo muitos, meu temperamento
A Lisboa e aos lisboenses (lisboetas?) os meus mui sinceros agradecimentos, principalmente ao Seu António, pai da Isabel, que me mostrou como o povo daqui pode ser gentil.
ps: os agradecimentos não se estendem para o dono da Pastelaria “O Coringa”, aqui ao lado do hotel, o gajo é muito estúpido
Se Darwin estudasse a evolução culinária certamente chegaria à conclusão que nossa Feijoada evoluiu do Cozido à Portuguesa: troque feijão preto por branco, paio por chouriço (a linguiça, não o corte argentino/uruguaio), a couve por repolho, o molho de pimenta por piri-piri. e pronto, temos um Cozido à Portuguesa.
Claro, isso só vale se o Cozido já existisse na época da escravidão no Brasil, mas creio que sim.
Ufa, hoje andei… tudo seguindo o Roteiro do Pessoa, que ganhará uma página exclusiva quando eu terminar, mesmo incompleto.
O castelo é tão antigo que sequer conseguem precisar o ano de sua construção pelos mouros (muçulmanos), de certa maneira pode-se dizer que ele é mais velho que Lisboa.
E caminhar por suas escadas, corredores, e terraços, proporciona uma rica mistura entre a beleza de admirar a contrução e seus monumentos, e a estranha sensação de contato com o passado, quando constatamos que estamos pisando em caminhos e degraus que foram construídos, e pisados, antes sequer do achamento do seu país.
Foi o que senti também com maior intensidade em Belém e na Sé, se bem que depara-se com essa sensação por todos os lados.
Como no restaurante em que almocei alheiras hoje: se me falassem que Pedro Álvares Cabral almoçou lá antes de partir em 1500 eu não duvidaria, de tão antigo o lugar