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Lula, o filho do Brasil

6, janeiro, 2010 8 comentários

Em 10 de maio de 1958, Carolina Maria de Jesus escrevia o seguinte em “Quarto de Despejo. Diário de uma favelada”: “… O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças.

Pode-se falar o que for sobre o Lula e seu governo, a média classe média do Sul e Sudeste pode esbraVejar do alto de sua indignação preconceituosa pouco esclarecida e muito manipulada; os analistas de plantão, bastante ouvidos apenas pela classe acima citada, podem dissecar todas as iniciativas e movimentos deste governo que certamente acharão erros, problemas, más condutas, na mesma medida que não enxergam, ou não divulgam, seus inversos.

Mas todos ão de convir que a trajetória de um nordestino que conheceu a pobreza e a fome e que viajou 13 dias em um pau-de-arara para, junto com sua família alicerçada pela mãe Dona Lindu, com seu bordão “Teima, é só teimar que dá certo”, salvar a vida em São Paulo, fez toda a diferença para os brasileiros mais pobres.

E é isto que o filme conta, acompanhando esta trajetória do nascimento em Garanhuns até a prisão do Lula e o enterro da D. Lindu em 1980. Sofre como qualquer filme que compacta 35 anos de história em duas horas, com alguns saltos no tempo que podiam ser melhor amarrados na minha opinião, mas ainda assim foram boas as escolhas dos fatos destacados, do elenco, e o cuidado na filmagem.

Irrita um pouco o merchand em excesso da Brahma, com guaranás e cervejas com os rótulos sempre visíveis, mas patrocínio é patrocínio… aliás, nos créditos iniciais, após o aviso ‘este filme não contou com nenhum incentivo fiscal, etc, etc’, a lista de patrocinadores parece uma carteira da Bovespa… Taí, podiam fazer um índice composto com as patrocinadoras do filme ;)
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Não é brilhante mas é um bom filme, e vale pra gente conhecer um pouco melhor a trajetória d’o cara :)

Sobre “Quarto de Despejo”: Carolina era uma favelada negra semi-alfabetizada que morava na favela do Canindé na década de 1950 com três filhos pequenos, sustentando-os na medida do possível como catadora de papel e, entre uma batalha e outra, escrevia um diário onde contou o cotidiano seu e da favela. Descoberta por um jornalista, conseguiu publicar um livro com fragmentos do diário abrangendo de 1955 a 1o de Janeiro de 1960. O livro foi um fenômeno de vendas e ela consegui realizar o sonho de ter uma casa de alvenaria. Publicou mais alguns livros, ficou conhecida mundialmente – foi tema de documentário na Alemanha – e finalmente morreu pobre e esquecida em seu país em 1977.
Do livro, em 28 de Maio de 1959: “… A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.”

Aconselho a leitura para todos que querem conhecer um pouco da miséria e do que é passar fome sem ser nas dietas pré-verão ou nos jejuns pré-exame de sangue.

Aqui na Livraria Cultura, classificado com ‘infanto juvenil’!

Fumar em São Paulo – a13.541

5, agosto, 2009 12 comentários

Aos 14 anos, em meados de 1986, num ponto de ônibus na Vila Matilde, dei meu primeiro trago num Free e, tonto, iniciei a série, ainda crescente, de milhões de tragos que tanto participaram da minha vida.

Antes deste marco eu já fumava, desde criança na tabela passiva da convivência de uma família quase 100% fumante, e desde alguns meses antes meus próprios cigarros, furtados da mesada ou do maço de um dos meus pais (Shelton se do meu pai, Charm se da minha mãe). Fumar foi o caminho natural de adesão à tradição familiar e à de boa parte da minha geração, no entanto até aquele momento eu não tragava: a fumaça percorria apenas o caminho da boca ao nariz, pois eu simplesmente não sabia que tinha que respirar o negócio… não haviam manuais de tabagismo!
Até que um dia observei mais atentamente um fumante que demorava um bocado a mais do que eu para liberar a fumaça e resolvi, após algumas considerações, que a única maneira disto ocorrer com a fumaça seria inalando-a. Feito, a ignorância só me conseguiu poupar uns poucos dias de saúde.

Fumar, além da ilusão de independência e maturidade que proporcionava, me incluia em um grupo, o dos independentes, maduros, e fumantes! Na escola o cigarro para os outsiders – os que não tinham nenhuma inclinação para o esporte ou para formar grupos de aporrinhação aos outsiders – era uma senha: reconhecíamo-nos nos sinais de fumaça e nos conhecíamos serrando coletivamente cigarros uns dos outros, até que conseguimos formar uma turma auto-sustentável composta de 90% de fumantes.
No início a prosmicuidade do fila fazia com que trocássemos regularmente de marca, até que cada um, depois de alguns meses, adotou o seu de prefefência: eu LM azul, o Valcir Plaza curto, o Boys com Galaxy, a Rô acho que era Free, o Will e o César, Holywood. Sem nunca abandonar o sempre popular Simidão, que preenchia as lacunas aos finais das mesadas.

Naquela época, fora da sala de aula e dos coletivos, fumava-se em qualquer lugar e não existiam ‘não-fumantes’, apenas ‘ex-fumantes’, que eram os únicos que protestavam contra a fumaça. Fumávamos nas reuniões internas do grêmio, nas sessões de teatro que terminavam num boteco qualquer – nunca encenamos uma peça, mas fizemos a alegria dos donos de botecos da Penha, já que não havia qualquer mal em vender cerveja e cigarros para qualquer um – no cinema, nos ônibus de turismo, nas filas em bancos, no trabalho. Creio que haviam leis contra o fumo na maioria destes ambientes, mas sei lá por qual motivo apenas nos ônibus urbanos, e em São Paulo capital, a proibição era respeitada.

De lá pra cá, enquanto meu vício se sofisticava – passei por inúmeras marcas até parar no Marlboro – e aumentava – parti de 1 maço por semana para atuais 2 por dia, num dia bom – ele sobreviveu a algumas tentativas de separação, até que percebi que, a cada vez que voltava a fumar, voltava fumando mais e mais fortes cigarros, e desisti de tentar parar.

Durante muitos anos continuei fumando com liberdade em quase todos os lugares impensáveis hoje em dia: nos corredores dos cursos noturnos, na mesa de trabalho ao lado de não fumantes, em simplesmente qualquer bar ou restaurante – com um curto respeito às nossas refeições – , nos aviões… sim, os aviões eram divididos ao meio por uma cortininha mágica que separava as áreas de fumantes e não-fumantes (ah que saudade dos Electras da ponte Rio-São Paulo…) e impedia que a fumaça dos primeiros invadisse a atmosfera dos segundos.

Nesse percurso, além do meu pulmão e vários sofás e tapetes, também vários momentos da minha história ficaram marcados pelo cigarro, como a namorada que começou a fumar quando namorávamos – e não parou depois que terminamos; a rodinha de irmãos fumantes no velório do meu pai que sofreu de câncer, todos de cigarro na mão e falando de parar de fumar; a paquera que perdi em Hamburgo ao sair para comprar cigarros – quando voltei… ah, deixa pra lá ;) ; os dias sem grana onde tive que optar entre o cigarro e um lanche (venceu o cigarro); as caminhadas noturnas quando o estoque acabou no meio da madrugada; o fôlego que percebi que perdi quando precisei dele… bem, bem sei, todas ruins.

E aí as coisas começaram a mudar depois da metade da década de 90: primeiro surgiram as áreas de fumantes nos restaurantes, depois a proibição total no ambiente de trabalho e nas áreas comuns de qualquer ambiente coletivo, nos aviões também a proibição foi rápida e definitiva (quero saber até quando vão fabricar os aparelhos com os obsoletos avisos de ‘não fumar’)… até que, perto do ano 2000, surgiu uma forte e atuante classe: os ‘não-fumantes’.

Diferente dos chatos ‘ex-fumantes’, aos quais podíamos retrucar lembrando suas antigas baforradas, os ‘não-fumantes’ já nasceram inocentes e prenhes de razão, militância, e intolerância, como se quisessem ir à desforra por anos de nicotina alheia e como se tivessem a certeza de que uma respirada qualquer de um Marlboro na mesa ao lado os levariam a terminar a noite no consultório de um oncologista.

Armados com fuzilantes olhares de reprovação e ágeis mãos abanadoras, aos poucos foram conquistando corações e mentes (e pulmões!), corretamente inibindo o fumante onde fumar era inadequado e, prova de sucesso, tornando cada vez mais constrangedor fumar até onde é permitido. Já faz tempo que, antes de acender um cigarro em um ponto de ônibus, verifico a direção e força do vento, para me posicionar estrategicamente em algum lugar onde minha fumaça não alcançará ninguém.

Hoje, principalmente depois da experiência na europa, onde vi que não é assim tão desagradável ir à calçada fumar seu careta, estou conformado com a nova lei – ainda tenho algumas dúvidas, como se poderei fumar no estacionamento do prédio se eu estiver dentro do carro – e pretendo acender meu último cigarro dentro de boteco amanhã às 23:55 e apagá-lo respeitosamente às 00:00, mas já com saudade dos velhos tempos e declarando meu apê e meu carro como zonas livres de lei antifumo ;)

Tecnologia pré-Real

7, julho, 2009 5 comentários

Hoje, em matéria sobre os 15 anos do Plano Real, no Jornal Nacional a máquina de etiquetar preços foi utilizada como símbolo da hiperinflação* pré-plano, com os repórteres abordando populares no mercado e mostrando o aparelho, ‘Você lembra daquela época???’.

Bem, realmente é marcante a imagem dos funcionários clec-clec-clec constantemente nos produtos, que subiam de preços diariamente, mas era bom! Pense no mal que a tecnologia causaria atualmente em uma economia com aquela taxa de inflação?

Veja só: a re-etiquetagem* de preços era um trabalho manual, unidade a unidade dos produtos, e o pessoal trabalhava durante a noite para poder sobrepor – sobrepor literalmente: as etiquetas ficavam umas sobre as outras :) – os preços até a abertura das lojas, e depois continuavam dia afora.

Com os códigos de barras atuais, displays eletrônicos de preços substituiriam todo este trabalho e o Diniz lá da mesa dele, com um clique, aumentaria todos os preços dos laticínios em 0,93%, e com outro a cerveja custaria mais 1,26%  em todos os supermercados dele ao mesmo tempo… claro, alguma proteção do governo não permitiria aumentos durante o dia, senão pirigava do produto colocado no carrinho no início da compra custar mais quando chegássemos ao caixa.

Portanto, a máquina de etiquetar, embora símbolo, não era lá tão do mal assim.

* já que consultei, compartilho:
Acordo ortográfico BASE XVI
Do hífen nas formações por prefixação, recomposição e sufixação
1o) nas formações com prefixos (como ‘hiper-’)… se emprega hífen nos seguintes casos… d) nas formações com os prefixos hiper-, inter-, super-, quando combinados com elementos iniciados por r: hiper-requintado, inter-resistente, super-revista.
:. hiperinflação.

b) Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, contra-almirante…
:. re-etiquetagem.

Não se reprima, não se reprima…

19, junho, 2009 3 comentários

Nos últimos dias tenho escutado na CBN e Eldorado uma versão moderna e mais tranquila de “Não se reprima”, sucesso do Menudo nos anos 80… São Google esclareceu hoje através do blog Nada além de pop : é o início de uma campanha da Batavo/Perdigão, que vai até agosto :(

Para o mais novos, Não se reprima foi o grande hit dos Menudos na década de 80, mais notadamente em 1986, ano em que eu comecei o colegial e tive que aturar esses caras boa parte do ano – até que fugi da escola  :) .
Eles praticamente monopolizaram os hormônios das meninas da minha idade lá no Estadual da Penha… sobraram poucas, as mais alternativas.. não foi a toa que virei ripongo e comprei uma bolsa de couro ;)

Convento do Carmo – Lisboa

14, maio, 2009 Sem comentários

Ou melhor, “Ruínas do Carmo”, antiga “Igreja do Convento de Nossa Senhora do Vencimento do Monte do, ufa, Carmo” (o ‘ufa’ é meu), fundado em 1389.
O edifício foi bastante destruído no terramoto de 1775, e D. Maria I tentou restaurar, mas o dinheiro não deu.
No século XIX instalou-se lá um museu com peças de antigos edifícios arruinados e outras de valor arqueológico.

Lindo, só vendo.

Categories: História, Lisboa, Turismo

Panteão Nacional – Lisboa

12, maio, 2009 2 comentários

O Panteão Nacional em Lisboa é o edifício onde estão instalados os túmulos de diversas figuras históricas de Portugal, como Dom Pedro IV (nosso I), Dom João IV, Camões e… Amália Rodrigues.

Faltou Fernando Pessoa, mas vá lá, vou lá amanhã.

Numa ala dedicada a políticos da Era Repúblicana de Portugal há um quadro com uma linha do tempo dos Chefes de Estado desde então, e Salazar não está lá, há apenas uma breve citação ao “Estado Novo” no texto explicativo ao lado.

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Não sou adepto de esconder o passado, creio que mais atrapalha.

Ah, lembrei-me agora que em 25 de Abril último estava uma celeuma por aqui, pois na cidade natal de Salazar, Santa Comba Dão, inauguraram uma largo com o nome dele. Justamente neste dia…

Categories: História, Lisboa, Turismo

Flohmarkt e adjacências – Hamburgo

9, maio, 2009 Sem comentários

Mercado das Pulgas de Hamburgo, todo sábado… e num ensolarado, cheio de gente.
Em Sampa moro ao lado do da Praça Dom Orione, que tem o mesmo conceito, mas não a mesma diversidade; além da infra: no Flohmarkt há mais comes e bebes.

No caminho, um bar brasileiro que oferecia Brahma e Antarctica

DSC_0167 mas, não sei o porquê, não me apeteceram :)

O album da visita e do caminho pra casa

E algumas notas no link abaixo

Leia mais…

Categories: Hamburgo, História, Turismo

Foi bonita a festa, pá

26, abril, 2009 Sem comentários
DSC_0533 Ontem, 25 de abril de 2009, foi aniversário de 35 anos da Revolução dos Cravos, movimento que marcou o fim da ditadura do Estado Novo em Portugal, que teve início em 1926. Eu acreditava que Salazar estivesse no poder nesta ocasião, mas não, a ditadura estava na 2a geração, com Marcelo Caetano como presidente.

Foi um evento marcante para a sociedade portuguesa; e, recente,ainda está muito vivo na memória do povo daqui, que organiza um desfile de comemoração que desce a Av. Liberdade até a Praça D. João IV.
É um evento emocionante e que tive o prazer de acompanhar, e onde pude, além de torcedor da Lusa, ser um pouco português por algumas horas.

As fotos estão aqui, e no continuo abaixo alguns relatos.

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Categories: História, Lisboa, Turismo

Nem Santos Dummond, nem irmãos Wright…

20, abril, 2009 4 comentários

Tinha esperanças de que os franceses compartilhassem conosco o crédito da invenção do avião para o Santos- Dummond, afinal o voo do 14Bis foi aqui, então perguntei para uma francesa o que eles aprenderam na escola e ela,  como nada lembrou, recorreu ao irmão que estuda engenharia aeuronáutica e a resposta foi…’Irmãos Wright’.
Decepcionado e insatisfeito, procurei no Google o que sites franceses encontram e voila, nem Dummond nem Wright, o inventor do avião foi um francês!!!

Para eles, Clèment Ander o inventou em 1890, anos antes de ambos.

Nota: Santos-Dummont foi um precursor do ‘ open source’, pois ele divulgou os esquemas do ‘ Demoiselle’, um avião funcional pós 14-Bis, e só cobrava as despesas de postagem.

Categories: Cotidiano, História